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sexta-feira, outubro 31, 2008

Pela suspensão do modelo da avaliação do desempenho docente

Movimento de resistencia à avaliação docente (modelo do Ministério da Educação) em Portugal, 30 de Outubro de 2008
(Clique para aumentar)


Neste pequeno mapa podemos observar a localização de muitas das escolas públicas que já se manifestaram contra o modelo da avaliação do desempenho do M.E. com abaixo-assinados ou que suspenderam a mesma ou nas quais se demitiram em grande número os respectivos avaliadores.
Nas zonas da grande Lisboa e do Porto não se consegue observar bem as diversas escolas mas foi o que se obteve do trabalho executado usando o Google Earth.


Fonte: Movimento Escola Pública, 30 de Outubro de 2008
Mapa: Google Earth

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quarta-feira, outubro 29, 2008

Pedro Carvalho* - A crise por detrás da(s) crise(s)

Pedro Carvalho«O moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa»
«Nas crises irrompe uma epidemia social (...) – a epidemia da sobreprodução. (...) E como triunfa a burguesia nas crises? (...) pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas (...) [e] pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de antigos mercados. De que modo, então? Preparando crises mais omnilaterais e mais poderosas, e diminuindo os meios de prevenir as crises.»
K. Marx/F. Engels [1]

A ponta do iceberg

A injecção de capital de 200 mil milhões de dólares, efectuada pelo governo norte-americano no passado dia 7 de Setembro, para salvar os seus dois «gigantes» do crédito hipotecário, Fannie Mae e Freddie Mac [2], marcou o início de uma vaga de operações de salvamento efectuadas por diversos governos do centro do sistema capitalista mundial, por via de tomadas de posição directa no capital ou pela promoção de fusões&aquisições, à medida em que diversos bancos e outras instituições financeiras entravam em colapso. Desde então, só as injecções de capital, com vista à «recapitalização» do sistema bancário, que se traduziram em efectivas «nacionalizações» parciais, ascenderam a mais de 545 mil milhões dólares, em 24 bancos de 7 países do centro do sistema capitalista [3]. Ao mesmo tempo, os governos têm concedido milhares de milhões de dólares em garantias e avales ao sistema bancário e financeiro. Em paralelo, os principais bancos centrais ao nível mundial, tomam acções concertadas de redução das taxas de juro de referência e injectam milhares de milhões de dólares em liquidez no mercado interbancário. Intervenções que visam também trazer confiança aos mercados de capitais, que continuam a deflacionar, no meio de muita volatilidade, numa sucessão de crashs e mini-crashs bolsistas. O FMI estima que só as perdas, ao nível dos activos financeiros e empréstimos dos EUA possam atingir os 1,4 milhões de milhões de dólares [4].

As operações de salvamento em curso seguem a resposta do sistema às crises financeiras que tem pontuado as últimas três décadas: nunca deixar «cair» uma instituição financeira que possa por em causa o fluxo constante de crédito ao sistema e injectar liquidez, de forma directa ou indirecta, «encharcando» o sistema de capital-dinheiro. Foi assim na crise das «savings and loans» [5] durante as décadas de 80-90 (a última crise do sector imobiliário nos EUA), no colapso do hedge fund «Long Term Capital Management» [6] em 1998 nos EUA, na crise do sector bancário dos países nórdicos no seguimento do crash bolsista de 1987 ou, em episódios localizados, como o colapso do Credit Lyonnaise em 1994 em França [7]. Os governos tudo fazem para fazer arrancar o «motor» do crédito do qual depende o sistema capitalista, substituído dívida privada por dívida pública.

Mas face à amplitude da actual crise financeira e ao peso dos activos financeiros detidos pelos principais bancos, levanta-se a questão da sustentabilidade orçamental da resposta tradicional do sistema. Só a título de exemplo, o total de activos detidos pelo ING equivale a quase 3 vezes o PIB da Holanda, ou seja, uma operação de injecção de capital de 1% custaria ao governo holandês 3% do seu PIB, por via do aumento da dívida pública [8]. Ao que acresce o exemplo da denominada «década perdida» do Japão, que no rescaldo do crash bolsista de 1987, entrou num longo período de estagnação económica, do qual ainda não recuperou, apesar de taxas de juro reais negativas e todos os estímulos orçamentais.

A crise financeira vai continuar a agravar-se, na medida que mais ajustamentos serão necessários nos mercados de capitais e no sector bancário, nomeadamente tendo em conta o grau de inflação dos activos financeiros.

O sistema vive hoje a maior crise financeira desde a Grande Depressão da década de 30. Ao contrário das últimas crises financeiras localizadas sectorialmente ou geograficamente, como foi o caso da crise financeira que «varreu» a periferia do sistema capitalista mundial na segunda metade da década de 90 (com destaque para a crise asiática de 1997-1998), a presente crise é global e emana do centro do sistema capitalista mundial. E se o actual episódio de crise pode ser reportado à crise do «sub-prime» de Agosto de 2007 e, recuando a Março de 2000, à crise das empresas «dot.com» – da dita «nova economia», a verdade é que a responsabilidade da actual crise advém do grau de financeirização atingido pelo sistema capitalista mundial.

E a financeirização foi a resposta encontrada pelo sistema para a crise estrutural que atravessa, que reflecte a fraqueza e as contradições inerentes ao processo de acumulação de capital, a sua sobre-extensão, sobreprodução e sobre-acumulação e que afecta a componente central da reprodução do capital – a taxa de lucro esperada. Uma crise de rentabilidade na Tríade (EUA, UE e Japão), no «coração» do sistema capitalista mundial, que se arrasta nas últimas três décadas. A qual acresce um declínio da taxa de reposição do «capital natural» [9], onde a acumulação de capital, que se «alimenta» dos recursos naturais, põe cada vez mais em causa a capacidade de regeneração do meio natural, visível no aumento estrutural dos preços das matérias-primas de um ponto de vista histórico, nomeadamente o petróleo. Esta é a crise por detrás da(s) crise(s). A actual crise financeira é apenas a ponta do iceberg.

A Financeirização e a(s) crise(s)

Entre o esvaziamento da «bolha» especulativa de activos mobiliários, em Março de 2000, e a tentativa gorada, de transferência da «bolha» especulativa dos activos imobiliários para os bens alimentares, as matérias-primas e (sobretudo) o petróleo, o sistema capitalista vai ficando com falta de «balões de oxigénio», para responder ao avolumar da(s) crise(s), numa explosão sem paralelo do crédito e do capital fictício. Dois exemplos para ilustração. O valor da dívida internacional titularizada ascendia a quase 22 milhões de milhões de dólares em 2007, ou seja, mais de 40% do produto mundial e quase 2,5 vezes o valor de 2002 [10] (no primeiro trimestre de 2008, o valor já ascendia a quase 23 milhões de milhões de dólares). Só o valor nacional [11] dos contratos estabelecidos no mercado de derivados, em Dezembro de 2007, ascendia a cerca de 596 milhões de milhões de dólares, ou seja 11 vezes o produto mundial, tendo como base contratos cujo valor de mercado não chegava aos 15 milhões de milhões de dólares [12].

Estes números reflectem a contradição entre o fraco crescimento da base material – a economia real – nas últimas décadas e o forte crescimento do capital financeiro (e fictício), sobretudo no centro do sistema. Este crescimento do «direito de saque» sobre a base material, reflecte-se num «cheque sem cobertura», onde se esgota a capacidade de expansão do capital financeiro, por não haver crescimento da base material que o suporte como contrapartida.

Taxas de lucro


As crises financeiras recorrentes do sistema, com diferentes graus de severidade e com cada vez maior contágio internacional (fruto da «libertina» circulação dos capitais e da integração dos mercados financeiros a nível mundial), são a consequência da sua progressiva financeirização e do crescente predomínio do capital financeiro, que se acentuou desde o início da década de 80. Estima-se que a capitalização bolsista, a dívida titularizada e os activos financeiros em posse dos bancos comerciais, representem mais de 4,2 vezes o produto mundial [13].

Esta tem sido a principal resposta do sistema capitalista para a crise estrutural - a autonomização dos fluxos financeiros, onde o circuito do capital fica reduzido à transformação de capital-dinheiro em mais capital-dinheiro. Esta foi a resposta «deflacionária» (ou «neoliberal») do sistema, sedimentada na década de 90, no consenso de Washington, assente no crédito (endividamento) e na inflação dos activos financeiros. Ao contrário da resposta «inflacionária» (ou keynesiana), seriam os «défices privados» [14], em vez dos «défices públicos», a tentarem contrariar a tendência inerente ao sistema para a estagnação.

A não obtenção das taxas médias de lucro esperadas na esfera produtiva, com a estagnação do crescimento do produto material, o aumento da concorrência intercapitalista, a sobreprodução e o aumento da composição orgânica do capital, levou (e leva) à transferência das mais valias geradas para a esfera (da especulação) financeira e sua centralização em cada vez menos «mãos». E esta é a questão central, a baixa tendencial das taxas médias de lucro e sua baixa, que o aumento das taxas de exploração e as derrotas do bloco socialista, no começo da década de 90, não conseguiram inverter, como demonstra a evolução das taxas médias de lucro na principal potência imperialista – os EUA (ver Gráfico 1) [15].

Ao mesmo tempo, impregna-se a super-estrutura ideológica e usam-se as instituições nacionais (como os bancos centrais) e internacionais (como o FMI), com o suporte do aparelho do Estado (o orçamento), para se criar, quer as condições necessárias ao fomento e sustentação da própria financeirização, quer um quadro potenciador de uma maior intensificação da exploração do trabalho, num contexto de subutilização da capacidade industrial instalada e de crescimento do exército de reserva de desempregados e subempregados, com os cerca de 190 milhões de desempregados e os mais de 1,3 mil milhões de «trabalhadores pobres» existentes a nível mundial em 2007 [16]. Na última década e referenciando apenas as estatísticas oficiais, acrescentaram-se mais 35 milhões de desempregados ao exército de reserva «mundial» [17], num quadro de proletarização crescente de quase todas as camadas sociais. No contexto da actual crise, estima-se que o número de desempregados a nível mundial chegue aos 210 milhões em 2009 e que mais 100 milhões de trabalhadores engrossem as fileiras da pobreza [18].

As causas da crise

As crises financeiras são um «sintoma» da crise estrutural que o sistema capitalista atravessa, que não nos pode fazer distrair das causas profundas subjacentes à actual crise – as contradições e limites do modo de produção capitalista. Esta crise estrutural, com epicentro na potência hegemónica do sistema capitalista – os EUA, resulta da sobreprodução crescente de amplos segmentos industriais do sistema capitalista mundial e da sobre-acumulação de meios de produção existentes, face às dificuldades crescentes de obtenção por parte dos capitalistas das taxas médias de lucro esperadas e de realização das mais-valias geradas na esfera produtiva, sem as quais o processo de acumulação capitalista é interrompido. A perenidade dos gastos em investimento e em consumo são indispensáveis para o processo de acumulação de capital. O investimento para expandir o capital existente. O consumo para realizar a mais-valia. Sem a obtenção das taxas médias de lucro esperadas, os capitalistas não investem. Com o aumento da taxa de exploração e a desvalorização dos salários dos trabalhadores, o consumo não se efectua, sendo o crédito um substituto imperfeito e temporário.

Quotas salariais


O capital constitui em si mesmo uma barreira a sua própria expansão, face à contradição existente entre acumulação de capital e a baixa tendencial das taxas médias de lucro, e, face à contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as condições limitadas em que se processa o crescimento do consumo.

A ofensiva imperialista procura aumentar, por todos os meios, a taxa de exploração do trabalho – pela intensificação dos ritmos de trabalho, pela redução dos salários reais e pelo aumento do horário de trabalho, procurando extrair mais mais-valias, relativas e absolutas, com a vista a contrariar a tendência para a redução das taxas médias de lucro. Nas últimas quatro décadas têm se verificado a redução progressiva do peso dos salários no produto/rendimento nacionais na Tríade (de década para década), ou seja, tem se verificado um aumento da parte do produto/rendimento que vai para o capital, o que dá uma indicação sobre o progressivo aumento da taxa de exploração (ver Gráfico 2) [19].

Só nas últimas duas décadas estima-se que o peso dos salários no rendimento tenha se reduzido 13 pontos percentuais na América Latina, 10 na Ásia e Pacífico e 9 no centro do sistema capitalista 20].

O sistema capitalista mundial continua assim mergulhado num longo ciclo de estagnação, com crises recorrentes globais e localizadas, que se pode depreender da contínua desaceleração, de década para década, das taxas médias de crescimento do produto mundial (ver Gráfico 3), assim como das taxas de crescimento do produto das potências capitalistas mais desenvolvidas (o G7) [21]. Estagnação que a progressiva integração na economia mundial de potências, como a China, a Índia e a Rússia, não conseguiu inverter.

Se integração destas economias potenciou a exploração de novos mercados e contribuiu para o aumento da taxa de exploração, nomeadamente com a deslocalização da produção dos segmentos de mão-de-obra intensiva do centro do sistema capitalista, um maior acesso a fontes de «capital natural», uma maior integração do capital produtivo e o «embaratecimento» dos meios de reprodução da força de trabalho, aumentou também o grau de sobreprodução e o excesso de capacidade industrial instalada existente, aumentando as dificuldades de manutenção das taxas médias de lucro. As últimas previsões do FMI, apontam que a desaceleração do crescimento mundial irá acentuar-se em 2008 e 2009 22].

Produto mundial

O «capital natural» e a recolonização

Mas na fase actual, o sistema capitalista confronta-se com outro problema estrutural – a escassez da matérias-primas no seu centro e a crescente dependência da sua periferia, fruto das consequências do grau atingido de delapidação dos recursos naturais (nomeadamente a água, os solos, a floresta, os recursos minerais e os hidrocarbonetos - petróleo e gás), que põem em causa a normal «alimentação» do processo de acumulação de capital, que conjuntamente com a «bolha» especulativa no primeiro semestre de 2008, fez disparar os preços dos bens alimentares, das matérias-primas e do petróleo. Desde 2006, o preço médio das matérias-primas não energéticas aumentou 52% e o preço médio do petróleo 95% 23], tendo superado em Junho de 2008 a fasquia dos 140 dólares por barril. A recente descida dos preços das matérias-primas e do petróleo (para preços que rondam os 70 a 75 dólares o barril), em consequência da redução da procura mundial e das perspectivas de forte desaceleração do crescimento do produto mundial, confirma o aumento estrutural dos preços das matérias-primas e sua tendência de subida no futuro, com a progressiva escassez de «capital natural».

A luta pelo domínio dos recursos naturais e das principais fontes de matérias-primas, nomeadamente dos hidrocarbonetos, que são o «motor» energético do sistema, leva à militarização das relações internacionais e à guerra, ao aumento das rivalidades interimperialistas na divisão do mapa-mundo e no reforço da sua presença militar na periferia, a par da concertação estratégica contra outras potências emergentes, como a China. Assiste-se a uma progressiva recolonização pela Tríade (sobretudo EUA e UE) da periferia do sistema capitalista, na ânsia de obtenção de mercados e de controlo de recursos naturais e energéticos estratégicos ao desenvolvimento e reprodução das relações de produção capitalistas. Assim se explicam as «agressões e ocupações» no Médio Oriente, pelo domínio das maiores reservas mundiais de hidrocarbonetos, e o «despertar» do interesse das grandes potências imperialistas por África. Estima-se que se encontrem no continente africano 30% das reservas mundiais de minerais e metais (ainda não exploradas) [24], para além de 10% das reservas de petróleo e de cerca de 8% das reservas de gás 25].

Neste contexto, avolumam-se as contradições entre o centro do sistema capitalista, que concentra cada vez mais o consumo de bens, matérias-primas e recursos energéticos mundiais, e a sua periferia, numa lógica de desenvolvimento desigual, tendo em conta as necessidades, dos novos países emergentes, em matérias-primas e recursos energéticos para assegurarem o seu desenvolvimento, como é o caso da China, da Índia, dos novos países industrializados do Sudeste Asiático e dos países da Europa de Leste. Contradição em que se destaca os EUA que com 5% da população mundial, consome 25% dos recursos energéticos e é responsável por 22% das emissões de CO2 ao nível mundial 26].

A disputa pelo «capital natural» num contexto em que este se revela progressivamente mais escasso, é particular motivo de fricção e a principal causa de actuais e futura(s) guerra(s). A baixa tendencial da taxa de reposição do «capital natural» mete em causa factores essenciais para a sustentação da Humanidade, tornando cada vez mais premente a superação do modo de produção capitalista.

O esgotamento das respostas

As «respostas» que o sistema encontrou para a(s) crise(s) são apenas saídas «temporárias» para o estado de crise permanente e a tendência inerente para a estagnação. Na medida em que o sistema esgota as suas respostas – «inflacionária» e «deflacionária», num contexto em que os limites naturais se impõem e as contradições internas do sistema se agudizam, onde o sistema sofre cada vez mais de um problema de sobre-extensão, impondo limites à contínua expansão geográfica dos mercados, para além dos limites humanos físicos relativos às possibilidades de aumento da taxa de exploração, mais se acentua o perigo para toda a Humanidade de uma saída violenta do sistema – a guerra. Tanto mais quando se abrem brechas na hegemonia (nomeadamente económica) dos EUA e surgem novas potências emergentes na periferia do sistema capitalista.

A fragilidade financeira dos EUA, evidenciada pela actual crise, mostra, não só a fragilidade do sistema financeiro (e monetário) internacional, como põe em causa a posição privilegiada dos EUA, como principal centro financeiro mundial e emissor de moeda «mundial» – o dólar. A forte desvalorização do dólar e dos activos financeiros denominados em dólares, potencia o risco subjacente do excessivo endividamento norte-americano, que tem sido uma peça fundamental, embora precária e artificial, de sustentação do sistema capitalista mundial nas últimas décadas, á custa do crescimento do triplo défice (público, privado e externo) dos EUA, financiados pelas transferências dos seus «rivais» da tríade (Alemanha e Japão) e de outras potências emergentes, como a China. É de sublinhar que, o défice público atingiu os 345 mil milhões de dólares em 2007 (2,5% do PIB, duplicando face a 2000) e o défice da balança de transacções correntes atingiu os 739 mil milhões de dólares (5,3% do PIB, duplicando face a 2000) [27].

Assim impõe-se a seguinte questão: qual o grau de destruição que seria necessário dos meios de produção existentes, para repor a valorização do capital «desejada» e encetar um novo ciclo longo de acumulação de capital? A Grande Depressão, a última crise estrutural do sistema capitalista, apesar da já então resposta keynesiana, só foi «resolvida» com ampla destruição dos meios de produção, principalmente na Europa, na sequência da segunda guerra mundial. Os «trinta anos de ouro do capitalismo» ocorreram num contexto de reconstrução e de escoamento da produção dos EUA, por via do plano Marshall para Europa e do Plano Dodge para o Japão. Em paralelo com o crescimento do complexo industrial-militar, sobretudo dos EUA, em ligação com a «Guerra-fria». Mas dissipados os efeitos do pós-guerra, a crise voltou no final da década de 60. Em 1971, ruía o sistema monetário internacional do pós-guerra. Em 1973, a crise de sobreprodução ressurgia, sob a capa da «estagflação» e no «início» da crise energética, com o atingir do pico de produção petrolífera nos EUA e a guerra de Yom Kippur. Hoje, 35 anos depois, retorna a «estagflação» – estagnação económica com o aumento simultâneo da inflação e do desemprego, no pico da crise energética. Neste contexto ou sistema consegue revolucionar (novamente) os meios e instrumentos de produção, o que implica uma mudança do seu actual paradigma tecnológico, energético e agrícola, ou a guerra se torna cada vez mais provável, como saída do sistema para a crise que atravessa.

Num quadro em que se tornam evidentes os limites históricos do sistema capitalista, num contexto de uma crescente ofensiva imperialista que potencia as derivas destrutivas do sistema para toda a Humanidade, com a sombra da guerra e da destruição do meio natural, onde aumentam as desigualdades de rendimento e a pobreza, deixando milhões de seres humanos longe da satisfação das suas necessidades básicas, torna-se imperioso a tomada de consciência por parte dos trabalhadores e dos povos das causas sistémicas das desigualdades sociais e a necessária ruptura com o modo de produção capitalista. O capitalismo não é reformável nem regulável.

A actual crise financeira, tendo por detrás uma crise estrutural do sistema, potencia a intensificação da luta de classes, a consciencialização da classe operária e o desenvolvimento da acção revolucionária, como se pode depreender pelo recrudescimento das convulsões sociais e das oportunidades revolucionárias que despontam ao nível mundial. Mas estas não resultam em processos revolucionários, a não ser quando surgem sujeitos sociais com disposição revolucionária. E sabemos, por experiência, que o processo revolucionário é irregular, feito de avanços e recuos, de períodos de refluxo e de períodos de ascensão. Esta é a fraqueza dos nossos tempos, na dialéctica entre condições objectivas e subjectivas, o grau de amadurecimento das primeiras (nomeadamente o grau de socialização da produção e de centralização do capital), as condições subjectivas encontram-se numa fase quase embrionária, após anos de derrotas e enfraquecimento do movimento comunista internacional. E a ofensiva imperialista vai crescer em intensidade e violência, com a limitação dos direitos políticos (a mudança das leis eleitorais!) e económicos (ainda) existentes, com a intimidação e o uso dos crescentes aparelhos repressivos, mas também com a progressiva criminalização dos comunistas. Sabemos como a miséria e o desespero podem conduzir a soluções de cariz fascizante, a história do século XX assim o demonstra. São nestes tempos de resistências que vamos ter de (re)construir a alternativa.

Estamos a viver um momento particular da história que terá de trazer mudanças estruturais ao mundo que conhecemos. Um momento de enormes perigos para a Humanidade, mas também de imensas oportunidades, cujo pêndulo dependerá da luta, resistência e conquistas dos trabalhadores e dos povos. Da luta de classes. A Humanidade precisa do triunfo do socialismo. É cada vez mais necessário afirmar o futuro para construir o presente.



Este artigo teve por base a estrutura de um artigo publicado pelo mesmo autor na Revista O Militante nº 296, de Setembro/Outubro 2008, com o título A Crise do Sistema Capitalista.

Notas:
[1] Marx, K./Engels, F., «Manifesto do Partido Comunista», Edições Avante, Março 1999, pp. 38 e 42.
[2] Estas duas instituições possuem ou garantem cerca de metade das hipotecas do sector imobiliário nos EUA.
[3] Estes dados não tem em conta a «nacionalização» de 79,9% do capital da seguradora AIG, que teve uma injecção de capital inicial de 85 mil milhões de dólares no dia 17 de Setembro e um reforço de 37 mil milhões de dólares no dia 9 de Outubro. Esta inclusão faria ascender as injecções de capital para a mais de 667 mil milhões de dólares, dos quais 460 mil milhões de dólares dos EUA, 97 mil milhões de dólares do Reino Unido, 68 mil milhões de dólares da Alemanha e 42 mil milhões dólares dos restantes países (Holanda, Islândia, Suíça, Bélgica). Doherty, S., «State to the Rescue», FT.com, 20/10/2008.
[4] FMI, Global Financial Stability Report, Outubro 2008.
[5] Esta crise afectou mais de 740 associações que recolhiam poupanças e efectuavam empréstimos nos EUA para a compra de habitação – crédito hipotecário. O custo da crise cifrou-se em cerca de 160 mil milhões de dólares, dos quais quase 80% acabaram por ser cobertos por operações de salvamento por parte do orçamento federal norte-americano.
[6] Este fundo de arbitragem dos EUA acabou por ser alvo de uma operação de salvamento da Reserva Federal dos EUA, após perder 4,6 mil milhões de dólares num período de 4 meses, na sequência da crise asiática e da crise na Rússia de 1998. O valor nocional do fundo em derivados chegou a representar quase 1,3 milhões de milhões de dólares.
[7] Para uma perspectiva histórica comparativa das crises financeiras, consultar: Reinhart, C.&Rogoff K., «Is the 2007 U.S. Sub-Prime Financial Crisis so Different? An Internacional Historical Comparison», 5/2/2008.
[8] Para uma perspectiva global sobre o peso dos activos financeiros detidos pelos principais bancos europeus, consultar: O´Murchu, C.&Sauders, E., «Are European banks too big to fail?», FT.com, 7/10/2008.
[9] Sobre esta questão, ver: Rosa, Rui N.,«Uma terra generosa mas finita», publicado www.odiario.info, 23/09/2008 e do mesmo autor «As Crises em Crise – crescimento capitalista em causa», revista «O Militante» nº 296, Setembro/Outubro 2008.
[10] Cerca de 1/3 desta dívida foi emitida em dólares. FMI, Global Financial Stability Report, Outubro 2008.
[11] Os instrumentos derivados são geralmente transaccionados tendo por base o valor nocional, ou seja, o valor que representa o total global da negociação, cujo efeito no resultado será uma variação de preço, taxa ou índice sobre o montante.
[12] Entre Dezembro de 2005 e Dezembro de 2007, o valor nocional dos contratos estabelecidos pelos instrumentos derivados aumentou mais de 73%. Entre Junho de 2007 e Dezembro 2007 (após a crise do sub-prime) o valor nocional sofreu um aumento de mais de 15%, ou seja, um valor de quase 80 milhões de milhões de dólares. FMI, Global Financial Stability Report, Outubro del 2008.
[13] O valor ascendia a cerca de 230 milhões de milhões de dólares. Só o valor da capitalização bolsista no mundo era superior ao produto mundial. A Tríade (EUA, UE e Japão) tem rácios superiores. O valor da capitalização bolsista, da dívida titularizada total e dos activos bancários na UE era 5,5 vezes superior ao seu produto, nos EUA era 4,4 vezes superior e no Japão era quase 5 vezes superior. FMI, Global Financial Stability Report, de Outubro 2008, referentes ao ano de 2007.
[14] Utiliza-se aqui a mesma terminologia usada por Robert Brenner, numa «carta» aos editores da revista Against the Current, intitulada «Devasting Crisis Unfolds».
[15] Utiliza-se para o cálculo aproximado da taxa de lucro a taxa de retorno do capital (lucros depois de impostos/stock de capital). É de recordar que no final da década de 80 e na década de 90 ocorreu uma recuperação das taxas médias de lucro no centro do sistema capitalista, mas para níveis inferiores aos verificados antes da crise do começo da década de 70. «Note on the returns for domestic nonfinancial corporations in 1960-2005», U.S. Survey of Current Business, Maio 2006. Os trabalhos de Robert Brenner também mostram a tendência para a baixa da taxa de lucro no sector industrial na Tríade, ver por exemplo «The Economics of Global Turbulence”, Verso, 2006. Os trabalhos de Chris Harman apontam para as mesmas conclusões, ver por exemplo «The rate of profit and the world today”, International Socialism nº115, Julho 2007. Esta é uma das questões mais controversas entre pensadores marxistas, mas é uma das leis fundamentais para analisar o desenvolvimento do sistema capitalista.
[16] De acordo com a OIT em 2007 existiam 487 milhões de trabalhadores em pobreza extrema (vivendo com menos de um dólar por dia) e cerca de metade dos trabalhadores ao nível mundial encontrava-se em situação vulnerável de acordo com a definição da OIT. OIT, Global Employment Trends, Janeiro 2008.
[17] OIT, Global Employment Trends, Janeiro 2008.
[18] OIT, comunicado de imprensa ILO/08/45, 20/10/2008.
[19] Esta afirmação pode ser comprovada, em termos médios, de década para década, pelos dados da Comissão Europeia referentes á quota salarial ajustada e da OCDE referentes ao rendimento nacional.
[20] OIT, World of Work Report 2008, 16/10/2008.
[21] Carvalho, P., «A crise estrutural do capitalismo, Entre dois fogos: a sobreprodução e a queda das taxas de lucro», Revista Seara Nova nº 1702 (Inverno 2007).
[22] Apesar das diferentes formas de cálculo do produto mundial, o FMI aponta para uma desaceleração do crescimento do PIB mundial para 3,9% em 2008 e 3,0% em 2009 face aos 5% de 2007. A previsão para 2009 aponta para uma estagnação no crescimento económico do centro do sistema capitalista mundial e recuo de 0,1% do produto per capita. FMI, World Economic Outlook, Outubro 2008.
[23] Estes dados referem-se às projecções do FMI e tem como base os índices do FMI para os preços médios das matérias-primas, medidos em dólares. FMI, World Economic Outlook update, Julho 2008.
[24] Blanch, Hedelbert L., «A África e o poder das transnacionais», publicado em www.odiario.info, 20/9/2007.
[25] ONU, «Economic Report on Africa 2007, accelerating Africa´s development through diversification», Fevereiro 2007, pp. 50
[26] AIE, «Key world energy statistics», 2006.
[27] FMI, World Economic Outlook database, Abril 2008.

Porto, 23 de Outubro de 2008

* Economista


Pedro Carvalho, A crise por detrás da(s) crise(s)
– financeirização, sobreprodução e a queda das taxas de lucro, ODiario.info, 29 de Outubro de 2008

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terça-feira, outubro 28, 2008

N'Gola Ritmos com Lurdes Van-Dunem - Monami

(Meu filho)

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Sérgio Ribeiro - Romper com o capitalismo

Sérgio RibeiroQuem escora a sua leitura e interpretação da História no marxismo-leninismo, confrontando-a permanentemente com a realidade que vive, tem hoje motivos de satisfação. Não por vanglória de ter razão; não por estulta vaidade pessoal, não porque seja agradável de ver (e de conviver com) o espectáculo do mundo, bem pelo contrário. Mas porque, isso sim, dá força para a luta. Contínua.

Com a humildade que deve ser intrínseca a quem se arroga dessa leitura e interpretação, e de que Marx e Engels deram exemplo, como o prova, de forma cabal, o prefácio de 1872 ao Manifesto de 1848, quando afirma que o programa está hoje, num passo ou noutro, antiquado e que a aplicação dos princípios - que conservam, grosso modo, ainda hoje a sua plena correcção - dependerá sempre e em toda a parte das circunstâncias historicamente existentes.

Hoje, 160 anos depois, o mercado mundial a que se referia o Manifesto, como nele se lê deu ao comércio, à navegação, às comunicações por terra, um desenvolvimento imensurável (e ainda estavam para vir as comunicações por ar, em toda a sua acepção). E acrescenta-se que Este (desenvolvimento) reagiu sobre a extensão da indústria, e na mesma medida em que a indústria, o comércio, a navegação, os caminhos de ferro (e o mais que veio depois, pode acrescentar-se) se estenderam, desenvolveu-se a burguesia, multiplicou os seus capitais, empurrou todas as classes transmitidas da Idade Média para segundo plano (e entre estas estão os estados intermédios, no Manifesto o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês).

Multiplicou os seus capitais...!, quer isto dizer que, sendo o capital uma relação social ele é, também, um valor sob a forma monetária que é investido para a criação de mais-valia.

Ora, se a possibilidade de ocorrência de sobressaltos (chamemos-lhes crises) na circulação começa com a transformação de M-M (coisa trocada por coisa) em M-D-M (mercadoria trocada por mercadoria por intermédio de moeda, na designação genérica de dinheiro), com o capitalismo, como modo de produção, a circulação passa a ser D-M-D (dinheiro trocado por mercadorias para serem trocadas por dinheiro), e as crises começam a fazer parte do funcionamento do sistema pois a circulação exige que as mercadorias se troquem por dinheiro e o objectivo dela deixou de ser o de satisfazer as necessidades sociais, com M no final da circulação, mas o de realizar mais dinheiro, com D' (mais dinheiro) no final da circulação económica e, para essa realização, não são suficientes as disponibilidades para consumo criadas durante o ciclo.

Na viragem da década de 70 para a de 80 do século passado, tudo se complicou ainda mais com a ultrapassagem, no quadro da luta de classes, de um pico de crise (monetária com inconvertibilidade do dólar, do petróleo) pela via neo-liberal, monetarista, com expressão na crescente importância da circulação D-D' (dinheiro trocado por mais dinheiro, sem passar pelo ciclo produtivo). Chamemos-lhe especulação (bolsista e outras).

Mas esta foi uma forma, precária, instável e desestabilizadora, de ultrapassar uma contradição. Agravando-a. E, ao mesmo tempo, ilustrando a crise como inerente ao sistema, pois servindo para o capitalismo tentar superar, dentro dos seus parâmetros de classe, a contradição no seu funcionamento, cuja é a do desenvolvimento incessante e sem limites das forças produtivas em oposição às dificuldades e aos limites da valorização do capital, enquanto valor sob forma monetária.

Daqui resulta a necessidade, para a sobrevivência do sistema, da destruição de forças produtivas excedentárias (maxime, de seres humanos), excedentárias para a reprodução do capital por não permitirem o processo de sua valorização como valor monetário.

Cada vez mais concentrado e menos valendo porque, mantendo-se a necessidade vital de criação de mais-valia e agudizando-se o desenvolvimento da contradição fulcral entre a capacidade de produção e a capacidade de consumo, esse capital monetário está cada vez mais empolado pela desmedida circulação D-D' (dinheiro a mais dinheiro), com intervenção também cada vez mais relevante do crédito, até pelos constrangimentos e travões na evolução dos níveis salariais.

Por isso mesmo, no actual e gravíssimo pico de crise, a injecção de dinheiro pelo moderno poder de Estado (que... lê-se no Manifesto) é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa, a injecção de disponibilidades financeiras (dizia) é solução precária para a situação estrutural, sistémica, agravando-a a prazo, prazo cuja dimensão temporal é - e só esta o é - imprevisível.

As leis da economia, ainda que sacudidas tempestuosamente pela financeirização, são inelutáveis. No quadro do capitalismo, não existe saída para a crise que não passe pela radicalização violenta, fascizante ou fascista, como foi o caso dos anos 30 do século XX depois da crise de 29, a coberto de aparências democráticas, e pela destruição significativa de forças produtivas, como a militarização e a guerra o exigem e provocam.



O actual pico de crise confirma que o socialismo é um imperativo ditado pela evolução histórica. Mas para que, como possibilidade objectiva que é, ela se torne realidade, exigem-se forças sociais capazes de a concretizarem. Ora, nalgumas partes do mundo essas forças sociais perderam, batalhas que pareciam ter sido ganhas - e que o foram durante décadas -, noutras partes do mundo as forças sociais capazes de protagonizar reais mudanças, isto é, rupturas, não chegaram ainda à maturidade, por ausência de unidade entre os explorados, por divisões entre os trabalhadores, pelo atraso na tomada de consciência da classe operária e de todos os explorados, tudo entretecido capciosamente pela classe dominante e por quem a serve, com uso e abuso desmesurado da força da comunicação e informação, novos e poderosos instrumentos da luta de classes, pela agressividade do imperialismo na defesa dos interesses classistas e na permanente busca de recuperar posições perdidas.

Todas as flutuações que são próprias do processo histórico em nada põem em causa a característica fundamental da nossa época:

a crise do capitalismo abre o caminho para a alternativa ao capitalismo que é o socialismo. Tendo-se de ter bem presente que época histórica não se confina, temporalmente, aos horizontes de existência dos humanos.

Por outro lado, este pico de crise, depois de nos anos 90 do século passado e nesta primeira década do milénio em que outros já houve, depois de sucessivos sobressaltos enquanto se apregoava a estabilidade e o fim da História, este pico de crise veio trazer de novo à ribalta, e numa outra perspectiva, a noção de globalização, que apareceu com o objectivo ideológico de apagar a realidade do imperialismo. Citando Paul Krugman em 1997 (e fica sempre bem citar um Prémio Nobel...): A maioria dos governos do mundo avançado e industrializado, não são tão abalados pela globalização económica como se imagina. Eles mantêm bastante autonomia na regulação das suas economias, na definição das suas políticas sociais, e para a manutenção de instituições que diferem das que impõem aos seus parceiros económicos. E, enquanto se tergiversava sobre globalização, agudizou-se a concorrência inter-imperialista podendo dizer-se que foi a crise que se tornou global! Até já se tendo de falar nos off-shores...

Por isso mesmo, um pouco à boleia do Nobel tão fresquinho e ignorando os que ele chama teóricos acidentais que por aí pululam quando acontece o que outros previram e preveniram, ainda algo acrescentaria sobre geografia económica e soberania nacional.

É que, neste pico da crise do capitalismo, nesta situação evidentemente grave por mais que se avancem com analgésicos comunicacionais, com esperanças-ilusões como Obama ou até mesmo o tão dotado e dito irreverente Nobel da Economia, tudo configura novas formas de adiar a ruptura, através das mudanças à Lampedusa para que tudo fique na mesma, depois de arranjos em que prevaleça a alternância entre os neo-liberais acusados pelos sociais-democratas procurando, aqui, fazer esquecer que compartilharam sempre governos e responsabilidades pelas políticas e invertendo-se, ali, os respectivos papeis na farsa.

Voltando à geografia económica, as referências aos países emergentes são múltiplas e, por exemplo, os nossos banqueiros e políticos da política de direita não fogem ao canto da sereia (ou do cisne?), sempre com Angola nos lábios ou no pensamento. Foi, aliás, um grupo banqueiro transnacional - o Goldman Sachs, que faz parte dos que têm andado agora nas bocas do mundo, e onde o vice-presidente do PSD, e guru do neo-liberalismo, António Borges terá tido lugar importante -, foi este banco que lançou, em 2001, o acrónimo BRIC, a partir de Brasil, Rússia, Índia e China, auto-denunciando intenções estratégicas a que podemos chamar globalizantes, neo-coloniais, imperialistas, ou simplesmente divisão internacional do trabalho, em que esses países teriam lugares proeminentes e papeis destinados no contexto imperialista, o Brasil e a Rússia como fornecedores de espaço e de natureza, a Índia e a China como fornecedores de força de trabalho e de consumidores.

Para este peditório da divisão imperialista do trabalho já Portugal deu, através do que foi a integração no espaço económico europeu, com a subordinação do território e do mar (sublinho: do mar) sob soberania nacional a lógicas alheias ao interesse do País, favoráveis ao grande capital e potências estrangeiras, e o que tem representado uma verdadeira subversão da Constituição da República Portuguesa.

Sublinho, para quem não o lembre, que acabo de citar 2 das 10 rupturas com as políticas de direita que, na Conferência nacional do PCP sobre questões económicas e sociais, realizada em Novembro de 2007!, foram consideradas indispensáveis e urgentes para uma política alternativa que evitasse aos portugueses as consequências das políticas de direita que se inscrevem, servilmente, nesta fase do capitalismo.

Às mudanças nas políticas de direita, há que opor a luta por uma ruptura (e rupturas) com o capitalismo. A alternativa ao que se vive, e aos perigos que a Humanidade corre, é o socialismo!


Sérgio Ribeiro, A Crise do Capitalismo – as causas e a resposta necessária, Partido Comunista Português, 23 Outubro 2008

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segunda-feira, outubro 27, 2008

A falsa avaliação dos professores - o segundo tempo

Esta não parece ser a história da vara e da cenoura. Mais se parece com o holofote que obscurece a borda da ribanceira.


O momento presente caracteriza-se pelo preenchimento das fichas de avaliação e a fixação dos objectivos. Está escrito: os objectivos para o ano corrente (a média das notas de cada turma) não poderão ser inferiores ao do ano anterior. O professor está assim, perante o dilema: se sente que a turma poderá não alcançar tal média, segundo o seu próprio discernimento, estabelece uma meta mais modesta e aceita uma avaliação negativa do Minsitério, com consequências para a progressão na carreira; ou então, cede à tentação de relaxar o seu sentido de rigor, na esperança de conseguir passar pelo crivo legal. Tudo isto é o que eu designaria por primeiro tempo.


Resta o segundo tempo, ao qual poucos professores se têm referido. Afastemo-nos do buliço das vozes, tentemos perspectivar o desenvolviemnto desta situação num prazo de um ou dois anos. Com toda a probabilidade - está na lógica do mecanismo implementado, caso não lhe seja posto um travão - haverá um número significativo de professores que terão optado pela adesão involuntária ao facilitismo do modelo. Para defenderem o seu ganha-pão, é verdade, porque a isso foram pressionados até por superiores hierárquicos que se "esqueceram" de registar em acta as suas palavras. Que sorte poderão esperar estes professores? Estarão menos vulneráveis que aqueles que tenham optado pela firmeza deontológica na sua prática lectiva? Como será fácil, nessa altura, demonstrar a falsidade dos resultados dos alunos constantes nas pautas: e começar a pedir selectivamente justificações para as classificações atribuidas e assinadas. A assinatura de um trabalhador intelectual é o que ele tem de mais precioso. Para que perca valor, basta ser mal usada uma vez.


Atroz dilema, que mais vale ser ponderado na plenitude das consequências de cada alternativa, antes de moldar de forma irremediável todo o futuro profissional. Este tem que ser defendido em todos os momentos, não se compadece com relaxamentos.

O mais perverso do actual modelo de "avaliação" dos docentes é que tende a transformar todos os professores em cúmplices de um monumental simulacro de sucesso escolar sem qualquer correspondência na real difusão dos conhecimentos, apenas pela via da alteração do significado das notas dos alunos.

Maria de Lurdes Rodrigues já tinha mostrado ao que vinha quando enviou rapidamente um inspector para sacar uma retratação de Manuel Cardoso, na sequência da acusação feita por este de facilitismo ao Ministério. Usou a ministra um motivo instrumental - o eclipse de uma acta de reunião na noite anterior - para esconder a sua responsabilidade política. Note-se que a acusação foi feita nessa altura e pela primeira vez em público, precisamente por esse jovem. Qual o significado da retratação, considerando devidamente as circunstâncias em que foi feita? O seguinte: condição necessária para que a filha de Manuel Cardoso continuasse a beneficiar da profissão do pai para o seu sustento. É tão inglório tentar descobrir as conclusões a que Manuel Cardoso chegou da sua experiência enquanto professor pelo texto da retratação publicada pelo Ministério, como descobrir os avanços que Galileu imprimiu à Física moderna lendo a retratação apresentada à Inquisição.

Com a avaliação de cada docente a depender das notas atribuidas aos alunos, estas deixam de representar a fracção das respostas certas dadas por estes nos testes elaborados pelos professores, significam adicionalmente a condição necessária para que os professores continuem a exercer a sua profissão. Vemos assim que, na arte de instrumentalização dos trabalhadores, o episódio de Manuel Cardoso foi apenas um balão de ensaio. E todas as notas dos alunos daqui para a frente, caso o modelo vingue, não terão correspondência com as notas dos anos passados, no tempo em que os professores não eram forçados a fundir a sua própria classificação com a classificação dos seus alunos.

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domingo, outubro 26, 2008

Maria Lisboa - A falsa avaliação dos professores

Que o diploma sobre a avaliação docente é um verdadeiro monstro burocrático já todos constatámos. Que a esse monstro foram sendo implementadas mais cabeças, com os diferentes despachos e memorandos que lhe foram sendo anexados, em nome da regulamentação do monstro, transformando-o numa hidra de Lerna, também já todos nos apercebemos. Que os serviços intermédios do ME, com as suas estranhas interpretações, ainda, o “amostrenguem” mais, também já todos sabemos.
Que entre nós ainda consigamos aprimorar o “bicho” tornando-o ainda pior do que é, é que já ninguém entende.

Espanto-me, cada vez mais, como alguns elementos de uma classe diferenciada, portadora das mais altas habilitações académicas, revela a sua total iliteracia quanto à leitura, interpretação e aplicação de simples articulados de uma legislação.

Que a maioria das leis são mal redigidas é uma verdade. Que a maioria das leis são dúbias é outra verdade. Que nós não somos juristas também é verdade.

Por isso, o que temos que fazer é, apenas, ler. Ler como quem lê um texto. Ler, analisar e aplicar. Não temos que inventar. Não temos que devanear sobre… Não temos que inventar sobre…

Também sabemos que o considerar os resultados dos alunos, como um dos pontos chaves desta avaliação, é um dos maiores erros do monstro. Todos estamos cientes de que este item apenas visa a obrigatoriedade de mostrar resultados para as estatísticas e não o melhorar do ensino e ou da aprendizagem. Por isso mesmo, ainda se torna mais compungente o resultado da criatividade de que enfermam alguns “artistas grelhadores”.

Vejamos o que diz o 2/2008 sobre a relação entre: os resultados dos alunos, a definição de objectivos individuais a auto-avaliação e a avaliação do Presidente do Conselho Executivo (e onde me refiro a resultados dos alunos poderia referir abandono):

Quais são os elementos de referência para a definição de objectivos individuais?

Os objectivos individuais são formulados tendo por referência os seguintes itens:
A melhoria dos resultados escolares dos alunos;
(…)

Quais são os elementos de referência para a avaliação? *

A avaliação do desempenho tem por referência:
  1. Os objectivos e metas fixados no projecto educativo e no plano anual de actividades para o agrupamento de escolas ou escola não agrupada;
  2. Os indicadores de medida previamente estabelecidos pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada, nomeadamente quanto ao progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e a redução das taxas de abandono escolar tendo em conta o contexto socioeducativo.


* Reiterados neste ponto que consigna as competências da Comissão de Coordenação da Avaliação do Desempenho:

Os objectivos fixados e os resultados a atingir pelo agrupamento de escolas ou escola não agrupada no âmbito do respectivo projecto educativo ou plano de actividades são considerados pela comissão de coordenação da avaliação do desempenho no estabelecimento de directivas para uma aplicação objectiva e harmónica do sistema de avaliação do desempenho.

Que diz sobre a auto-avaliação?

A ficha de auto-avaliação é entregue aos avaliadores em momento anterior ao preenchimento, por estes, das fichas de avaliação, constituindo elemento a considerar na avaliação de desempenho mas não sendo os seus resultados vinculativos para a classificação a atribuir.

A ficha de auto-avaliação deve explicitar o contributo do docente, durante o exercício das suas funções, para o cumprimento dos objectivos individuais fixados, em particular os relativos à melhoria dos resultados escolares obtidos pelos seus alunos.

Para o efeito da parte final do número anterior o docente apresenta, na ficha de auto -avaliação, os seguintes elementos:
  1. Resultados do progresso de cada um dos seus alunos nos anos lectivos em avaliação:
    1. Por ano, quando se trate da educação pré -escolar e do 1.º ciclo do ensino básico;
    2. Por disciplina, quando se trate dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
  2. A evolução dos resultados dos seus alunos face à evolução média dos resultados:
    1. Dos alunos daquele ano de escolaridade ou daquela disciplina naquele agrupamento de escolas ou escola não agrupada;
    2. Dos mesmos alunos no conjunto das outras disciplinas da turma no caso de alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário;
  3. Resultados dos seus alunos nas provas de avaliação externa, tendo presente a diferença entre as classificações internas e externas.
Além dos referidos no número anterior, pode o docente apresentar outros elementos (…) que permitam comprovar o seu contributo para o progresso dos resultados escolares dos alunos, a redução das taxas de abandono escolar e a apreciação do respectivo contexto socioeducativo.

E sobre a avaliação realizada pela direcção executiva?

Na avaliação efectuada pelo órgão de direcção executiva os indicadores de classificação ponderam o seguinte:
Progresso dos resultados escolares esperados para os alunos e redução das taxas de abandono escolar, tendo em conta o contexto socioeducativo — aprecia os dados apresentados pelo docente na ficha de auto-avaliação os quais são objecto de validação pelos avaliadores;

Como é possível que lendo o mesmo que eu li (e transcrevi) haja quem seja capaz de fazer uma ficha de registo de avaliação do PCE, como esta?

Fichas Península de Setúbal

Ou uma ficha de definição de objectivos individuais, como esta?

Objectivos individuais


Ou seja obrigado, como noutra que eu conheço, a, na ficha de objectivos individuais, indicar a média de cada turma no ano anterior e a definir objectivos de manutenção ou superação dessas médias (indicando critérios de êxito/superação), não tendo em conta se a turma era do professor, se as notas/níveis foram resultado de subida por votação em conselho de turma, se existem alunos novos na turma, etc.

Ou ainda como noutra, em que foi definida uma determinada média de sucesso por ano de escolaridade e “foi decidido” que se, por acaso existe uma turma mais fraca, outra turma desse ano, que seja melhor, tem que compensar a média (“ganhando” o seu sucesso e mais o sucesso que a outra não conseguir, para cumprir a média).

Só posso dizer que não são os deuses que devem estar loucos, mas sim os humanos! Neste caso específico, alguns humanos-professores!

Será assim tão difícil perceber o que está escrito?

Será difícil perceber que a escola/agrupamento (departamentos e conselho pedagógico) propõe uma meta de consecução de resultados, quer seja em % de redução do insucesso, quer seja em % de aumento do sucesso, que essa meta estabelecida a nível de escola/agrupamento (em geral, ou considerando excepções em determinadas disciplinas que pensem não conseguir atingir a % proposta) deverá constar do Projecto Educativo e que todos os professores deverão trabalhar com os seus alunos para essa meta?

Será difícil perceber que o que se pretende é a melhoria dos resultados, através da redução/aumento da média do insucesso/sucesso obtida na globalidade dos alunos/disciplinas/anos de escolaridade, em função da tal % estabelecida no PE, e não em cada um per si?

Será difícil perceber que só no final é que o professor, na sua auto-avaliação deve fazer a análise, em função dos diferentes itens contidos na ficha de auto-avaliação, justificando aí o seu trabalho neste item? E que será a partir dessa análise que o PCE considerará se houve ou não cumprimento do objectivo neste campo?

Será tão difícil perceber que o professor não pode trabalhar em função de uma média de turma, pré-definida, garantindo que a terá de manter, ou melhorar? É isso que se pretende, mas as circunstâncias variam de ano para ano.

Será difícil perceber um professor não pode definir como objectivo individual o número de 2, 3, 4 ou 5 que vai dar no final do ano… e muito menos ser penalizado porque em vez de cinco 4, e três 5, deu sete 4 e um 5?

Será difícil perceber que um professor não é um fabricante de peças avulso cuja produção pode ser incrementada (… e mesmo aqui só até um certo patamar)?

E que dizer da “definição das médias” encontrada na 1ª ficha de que dou o link? E que dizer quando se considera que um professor é excelente quando atinge uma progressão superior a 100%?

Só pode! Está tudo louco! Ou será que é mesmo, e só, maldade?
Esta ADD é impossível e mais impossível se torna quando os "grelhadores" atingem níveis de loucura que a tornam num inferno de que nem Dante se lembraria.



Maria Lisboa, Loucura ou maldade?, Professores sem quadro, 26 de Outubro de 2008

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sexta-feira, outubro 24, 2008

Plataforma Sindical de Professores - Suspensão do modelo de avaliação

Assim não se pode ser professor



A Plataforma Sindical dos Professores e a Ministra da Educação estão em rota de colisão.Plataforma Sindical de Professores



Notícia sobre a necessidade de suspensão do modelo de avaliação em Frenprof, 24 de Outubro de 2008

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Ministério da Educação - Directores pára-quedistas nas escolas

Para o consumo público ficam os bons princípios. Mas logo a seguir, trata de se desmentir, agindo em contradição com as próprias palavras. Quanto às vozes críticas, basta ir dizendo que são pessoas que não respeitam compromissos, não é assim, Drª Maria de Lurdes Rodrigues? Pois não espere dos outros, sejam o público ou os críticos, maior consideração pelas suas palavras que aquela que demonstra ser capaz através dos seus actos. Até se dissesse que o seu desejo é transformar cada director de escola num lugar apropriado para um boy (ou girl) do Partido Socialista, grangearia da minha parte, se não a anuência, pelo menos o respeito devido a quem sabe ser coerente. O que a fará, Senhora Ministra, correr por tão esconsos caminhos? Estará mesmo convencida de que todos os que escutamos as suas palavras estamos privados de discernimento? (AF)



O Presidente do Conselho Executivo, e simultaneamente Presidente do Conselho Pedagógico, não precisa ser TITULAR! Como explica isto Srª Ministra? A senhora Ministra criou esta distinção entre TITULARES e PROFESSOR! Então os Professores TITULARES não seriam aqueles que iriam desempenhar as funções de maior responsabilidade nas Escolas, um grupo altamente qualificado? Ou será que o Presidente do CE e do CP não é um cargo de responsabilidade? Como justifica que não seja necessário o título de TITULAR, se para outros cargos de menor importância, como Coordenador de Departamento ou de Directores de turma tal cargo é exigido? EXPLIQUE Srª Ministra! E quando este mesmo Presidente do Conselho Executivo tem apenas o equivalente ao antigo 7º ano (ou seja, é bacharel, depois de uma formação à distância de alguns meses)? Há TANTOS nas nossas escolas! Vai avaliar colegas com mestrados e licenciaturas? É ele que vai avaliar TODOS os colegas da Escola. Muitas vezes, para além de ter habilitação muito inferior aos avaliados, há anos que não lecciona! Isto é avaliação séria, Srª Ministra?

A sinistra ministra, 24 de Outubro de 2008

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quinta-feira, outubro 23, 2008

Plataforma sindical de professores - suspensão do processo de avaliação

Plataforma Sindical dos Professores apresenta publicamente exigência de suspensão do processo de avaliação em curso



A Plataforma Sindical dos Professores promove na nesta sexta-feira, dia 24 de Outubro, pelas 17.00 horas, no Hotel Marquês de Sá, uma Conferência de Imprensa em que tornará públicas as razões por que, face à actual situação de desorganização, disfuncionamento e conflitualidade que a aplicação do modelo de avaliação do desempenho está a provocar nas escolas, exige a sua imediata suspensão.

A Plataforma Sindical dos Professores convida os/as Senhores/as Jornalistas a acompanharem esta Conferência de Imprensa.

Fonte: Fenprof, 23 de Outubro de 2008

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APEDE reune com FENPROF

APEDE
No próximo dia 29 de Outubro, a APEDE, o MUP e outros movimentos que se queiram juntar irão reunir com a direcção da Fenprof.

Fonte: APEDE, 23 de Outubro de 2008

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Várias escolas pedem suspensão da avaliação

Professores de várias escolas aprovaram moções e abaixo-assinados a exigir ao Ministério da Educação a suspensão do processo de avaliação de desempenho, segundo sindicatos e professores contactados pela Agência Lusa.

Ler o resto em Portugal Diário, 23 de Outubro de 2008

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quarta-feira, outubro 22, 2008

Escola Secundária da Amadora - Proposta de suspensão da avaliação

Escola Secundária da AmadoraSendo a definição dos objectivos individuais simultaneamente o ponto de partida e de retorno do processo de avaliação, é absolutamente fundamental que os professores tenham na sua posse atempadamente os elementos que lhe permitam estabelecê-los de forma realista.
Ora esses objectivos devem assentar:
- na indicação de metas que tenham por referência, de acordo com o estabelecido nos artº 8º e 9º do Dec.-Reg. nº2/2008, o PEE. Sucede que, por nem sempre se considerarem aplicáveis, o C.P. ainda se encontra em processo de revisão e discussão das mesmas;
- no fornecimento de dados estatísticos sobre resultados escolares que cubram um período superior a dois anos de modo a que se possa formular uma proposta credível. Acresce que tais dados, certamente existentes, devem ser integrados no Projecto de Avaliação do Desempenho da escola e facultados antecipadamente a todos os professores;
-nos dados estatísticos sobre abandono escolar por período semelhante ao atrás mencionado, informação igualmente ainda a fornecer aos professores;
- na articulação interdepartamental, em termos de propostas gerais comuns, que obedeçam a um projecto de escola. Tal articulação não foi até à data efectuada por falta de tempo;
-no levantamento de todas as situações em que, por deficiência de instalações e/ou de materiais disponíveis, seja impossível o uso de novas tecnologias e/ou técnicas inovadoras. Até este momento, não há informação de que esse levantamento esteja a ser posto em prática.
Desta forma, e considerando que não existe uma inventariação dos itens anteriormente referidos, parece-nos impraticável manter a data de 31 de Outubro ou mesmo de 14 de Novembro para a apresentação dos objectivos individuais, como inicialmente proposto. Assim, propõe-se a suspensão sine die do calendário já aprovado em Conselho Pedagógico.

Amadora, 21 de Outubro de 2008



Fonte: Resistindo, resistindo..., publicado por ASHA em A sinistra ministra em 22 de Outubro de 2008

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José Eduardo Agualusa - A Conjura

José Eduardo Agualusa"Contra os bretões marchar, marchar...", este o grito do povo, os versos que o povo deu de cantar na capital do reino e que desceram depois por aí abaixo até às ruas de Luanda. Em Lisboa a notícia do Ultimatum trouxe à cena multidões furiosas mas sem direcção, como um enxame de abelhas a que se lança uma pedra. Escusadamente tremeu o rei pela sua cabeça; escusadamente empalideceram os nobres fidalgos, a próspera colónia inglesa de Sintra e de Cascais: ninguém se lembrou de os guilhotinar! Povo de ódios mansos, de brandas vinganças, os alfacinhas limitaram-se a estilhaçar as vidraças da redacção do jornal progressista Novidades e, defronte do edifício de O Século, à Rua Formosa, a aclamar longamente os eufóricos arautos da república. Em vão se barricou D. Carlos no seu palácio de Belém, toda a noite incomodado por fortes diarreias; toda a noite de espada na mão, a bradar que venham, venderemos cara a vida. (Que isto de ser rei exige exemplar heroísmo e compostura!)

A Conjura @ 2008, José Eduardo Agualusa

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Paulson e Bernanke - Pedido de empréstimo

Stewart: Então, meus senhores, Paulson, Bernanke, é um prazer vê-los aqui… novamente.

Paulson: Quero dizer-lhe que esta não é uma posição na qual eu queria estar. Eu não queria estar nesta posição…

Stewart: Descontraia-se, meu caro… sendo avaliador de empréstimos ouço isto todos os dias. Agora passemos a algumas formalidades. Como foi a sua carreira profissional?

Paulson: Fui director executivo da Goldman Sachs desde… Janei… Desde Maio de 1999 até sair, para vir para cá, em meados de 2006.

Bernanke: Nunca trabalhei em Wall Street, não tenho esses interesses nem essas ligações.

Stewart: Não estejam nervosos rapazes. Ambos são brancos, ambos são ricos, logo é claro que isto não é um daqueles empréstimos “sub-prime” com que nós tivemos de lidar. Muito bem, chega de conversa fiada, passemos aos números. Quanto é que estão a pedir?

Paulson: 700 mil milhões de dólares.

Stewart: 700 mil milhões? É que, segundo os meus registos, já cá esteve quatro vezes este ano, a pedir 25 mil milhões para a indústria automóvel, 85 mil milhões para uma companhia de seguros, 200 mil milhões para umas tais de Fannie e Freddie não-sei-quantas…

Paulson: É preciso mais.

Stewart: Pois, bem… Só de aceitares um cheque, ó careca. Aliás, um cheque careca. Um cheque sem cabelo… Digo cobertura… Só mais uma perguntas, minha gente, para quem é que vai esse dinheiro? Para o povo, calculo?

Paulson: Uma vasta gama de instituições… Bancos grandes, bancos pequenos, de depósitos e empréstimos, cooperativas de crédito…

Stewart: Porque é que não disse logo? Eles são de confiança, vão devolver-nos o dinheiro, certo? Barbudo (Bernanke), tens estado para aí calado.

Bernanke: Vai ser recuperada uma percentagem substancial, mas se será o total é difícil saber.

Stewart: É difícil saber… Interessante. Normalmente exijo uma resposta melhor, mas tendo em conta que foram vocês que nos meteram nesta crise, não terei o mesmo grau de exigência. Vamos ver se percebi bem: querem que vos demos quase um bilião de dólares para vocês os entregarem a bancos falidos, geridos por tipos que usam notas para acender os charutos e o melhor que me conseguem dizer é que talvez nos devolvam algum do nosso dinheiro?

Bernanke: Os contribuintes americanos verão o seu dinheiro bem empregue. Não consigo prever o futuro e já me enganei diversas vezes.

Stewart: Sabem que mais? Que se f… levem lá o dinheiro. Mais um empréstimo perdido? Tanto faz.



Transcrição de Diogo.

Não perca o video com legendas em português.

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A auto-avaliação dos alunos

Posição pessoal acerca da ficha de auto-avaliação

Não aceito que a ficha de auto-avaliação dos alunos seja incorporada no meu processo de avaliação de desempenho, por ofender as minhas convicções pessoais acerca da acção docente.

Ao solicitar aos meus alunos o preenchimento da sua ficha de auto-avaliação, deverei fundamentar a honestidade do seu preenchimento, na desvinculação dessa ficha à avaliação, quer do aluno, quer do docente.

Se não puder afirmar isso explícitamente, nesse caso a mensagem que lhes faço chegar, por omissão será que o preenchimento da ficha destina-se precisamente a produzir efeitos, quer na avaliação do aluno quer do professor.

E eles vão perceber que o interesse em dizer bem do professor é recíproco, uma vez que ele tem necessidade de ilustrar boas notas com boas apreciações, do mesmo modo como tem necessidade de justificar más notas com depreciações.

E para a escola, então será o desastre total da sua credibilidade externa, uma vez que passará a ser aquela escola onde os professores são avaliados pelos alunos, onde aquele professor que não deixa os alunos irem à casa de banho não tem hipótese de progredir na carreira.

E para cúmulo, até o calendário em que a ficha é aprovada contribui para reforçar essa ideia, porque não é uma ficha que já se encontrava em vigor nas tradições da escola, no momento em que a escola decidiu integrá-la no sistema de avaliação docente.

Por tudo isso, e acima de tudo por uma questão de respeito aos meus alunos, venho informar da minha recusa em aceitar a introdução da ficha de auto-avaliação dos alunos no meu processo de avaliação de desempenho. Não posso aceitar que o meu relacionamento com os alunos venha a ser envenenado por um processo de avaliação que não tem por ambição interferir no processo pedagógico, mas apenas observá-lo.

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SPGL - A avaliação de desempenho nas escolas

(via (Re)flexões)

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Jean Salem - Lenine e a Revolução

Para compreender a História do Século XX (AF)
Jean Salem, Lenine e a Revolução


Ver também:
Entrevista com o Autor
Apresentação por Miguel Urbano Rodrigues

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terça-feira, outubro 21, 2008

Portimão - Manifestação da Revolta Docente

Manifestação da Revolta docente, Portimão, 21 de Outubro de 2008

Manifestação da Revolta Docente



Moção



Os professores e educadores presentes na Manifestação da Revolta Docente, em Portimão:

  1. Declaram o seu mais veemente protesto e repúdio perante o Novo Modelo de Avaliação de Desempenho introduzido pelo Decreto Regulamentar nº 2/2008.
  2. Recusam um modelo que configura uma lógica burocrática, economicista, punitiva, anti-pedagógica e normalizadora, desviando os reais objectivos que devem presidir ao processo de ensino-aprendizagem e sujeitando os professores a tarefas de índole meramente burocráticas de elaboração de documentos, em prejuízo das funções pedagógicas e didácticas.
  3. Rejeitam um modelo de avaliação assente num Estatuto da Carreira Docente que divide arbitrariamente a carreira em duas categorias, bem como um regime de quotas que impõe uma manipulação dos resultados da avaliação, o que irá provocar nas escolas situações de uma tremenda parcialidade e injustiça e fabricar um falso sucesso escolar.
  4. Consideram ilegítimo e injusto que a avaliação de desempenho e a progressão na carreira dos docentes, se subordine a parâmetros como a avaliação atribuída aos seus alunos e o sucesso destes. Tal como rejeitam frontalmente a penalização nos critérios de obtenção de “Muito Bom” ou de “Excelente”, pelo facto de usarem direitos protegidos e consagrados constitucionalmente, como sejam a maternidade/paternidade, doença, o cumprimento de obrigações legais e nojo, ou a participação em eventos de reconhecida relevância social ou académica.
  5. Acham execrável que este modelo de avaliação de desempenho – um autêntico monstro – sirva para adulterar a graduação profissional dos professores através da introdução de uma nova variável na graduação, ou seja, um professor que obtenha Excelente vai ter mais 3 valores na graduação, um que tenha Muito Bom terá mais 2 valores e os restantes, com Bom, Insuficiente ou Regular levam todos zero.
  6. A vida nas escolas está num autêntico sufoco e os professores já não aguentam mais, passado que é apenas um mês de aulas. São reuniões sucessivas e intermináveis, sobrecarga de tarefas e aumento de ritmos e horas de trabalho, aumento das divisões e tensões na classe, preenchimento de grelhas, objectivos e de todo o tipo de papelada burocrática que não serve rigorosamente para nada. Os professores e educadores, a perder cada vez mais os seus direitos históricos, não têm tempo para se dedicarem ao nobre acto para que foram formados – ensinar devidamente os seus alunos. Tal, irá reflectir-se negativamente na aprendizagem destes.
  7. Os professores e educadores não questionam a avaliação de desempenho como um instrumento que conduza à valorização das suas práticas docentes, com resultados positivos nas aprendizagens dos alunos e promotor do desenvolvimento profissional. Um modelo que seja o resultado de um amplo debate nacional entre os docentes, os seus legítimos representantes e o Ministério da Educação, que seja consistente, formador e capaz de valorizar a diversidade de competência que compõem a escola. Desta forma, a Escola Pública será prestigiada, valorizada e dignificada.


Perante o acima exposto, os professores e educadores presentes:
  1. Exigem ao ME a suspensão imediata do actual modelo de avaliação de desempenho.
  2. Saúdam as diversas iniciativas de resistência e protesto que se têm vindo a manifestar em diversas escolas do país contra este modelo de avaliação.
  3. Apelam a todos os Movimentos e Sindicatos de Professores para que, Todos em Unidade, participem em Novembro, numa Manifestação Nacional contra este modelo de avaliação de desempenho e as políticas negativas do governo na área do ensino e educação.
  4. Exortam todos os Professores e Educadores deste país a lutarem pelos seus direitos e em Defesa da Escola Pública, resistindo, ampliando e participando em todas as acções de protesto e revolta contra essas políticas negativas e, em particular, contra o “monstro” que representa este modelo de avaliação de desempenho. Há que aniquilar o “monstro”, antes que nos devore!


Portimão, 21 de Outubro de 2008


Observação: Esta Moção foi aprovada por unanimidade e aclamação por uma centena de professores presentes na Manifestação da Revolta Docente.




Fonte: Fénix Vermelha

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Escola de Vila Nova de Poiares - Suspensão da Avaliação de professores

(Recebido via email de Moriae)

"O Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Poiares pediu ao Ministério da Educação a suspensão do processo de avaliação de desempenho. Segundo o Conselho Executivo, o modelo é "inexequível" e os professores estão "sem tempo" para os alunos.
Numa carta enviada à ministra da Educação, a que a Lusa teve acesso, 116 dos 130 professores do Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Poiares pedem a "revogação imediata" do despacho que institui a avaliação de desempenho e de toda a legislação "conexa".
Os docentes consideram que a aplicação do modelo é "inexequível, por ser inviável praticá-lo segundo critérios de rigor, imparcialidade e justiça" e que "não contribui nem para o sucesso dos alunos, nem para a qualidade do trabalho pedagógico que os professores pretendem".

"Assenta numa perspectiva desmesuradamente burocrática, quantitativa e redutora da verdadeira avaliação de desempenho dos docentes. Pela sua absurda complexidade, não é aceite pela maioria dos professores deste país, não se traduzindo, por isso mesmo, em qualquer mais-valia pessoal e/ou profissional", lê-se na missiva.

Em declarações à agência Lusa, a presidente do Conselho Executivo afirma que os professores já andam "deprimidos, extremamente cansados e desmotivados", garantindo que o tempo disponível para os alunos "é diminuto".

"Se esta burocracia traduzisse no final um benefício para a educação fazíamos um sacrifício ainda maior. Mas pensamos que o que se passa é o contrário. Isto é acabar com o ensino porque os professores estão sem tempo para os alunos", garantiu Maria Eduarda Carvalho.

Segundo a responsável, os problemas começam logo com a divisão da carreira em duas categorias: professor e professor titular. Naquele agrupamento de escolas, os professores titulares do departamento de Matemática, avaliadores, são todos docentes da disciplina.

"Como podem avaliar um professor de Física, Química ou Informática quando cientificamente não tem nada a ver? Com a delegação de competências tenho professores de Educação Visual a avaliar professores de Educação Física", crítica a docente.

Maria Eduarda Carvalho acrescenta que a "grande maioria" dos docentes do agrupamento trabalha "muito mais" do que as 35 horas semanais e que alguns já estão a pensar abandonar a profissão.

"Este ano já se reformaram dois professores e outros dois estão a pensar pedir a reforma para o ano, ainda que com penalizações. O que me vale é que tenho um corpo docente jovem e sem tempo de serviço para o poder fazer", diz.

A presidente do Conselho Executivo sublinha ainda que a avaliação vai interferir com o "futuro e as vidas" dos professores, já que a classificação final influenciará o concurso de 2009, que vai ditar as colocações para os quatro anos seguintes.

"Não pode ser com uma avaliação leviana como esta", criticou a responsável, afirmando que, no seu caso, não se sente "preparada" nem "formada" para avaliar um docente de Educação Física, por exemplo: "Não sei avaliar se ele está a preparar bem as aulas".

Sublinhando que "os objectivos individuais e colectivos dos professores do agrupamento são ensinar os alunos e prepará-los para uma sólida construção de um projectos de vida", o conselho pedagógico aprovou no final de Setembro um outro documento, onde manifesta "repúdio" e "oposição" ao modelo do Ministério da Educação.

"A existência e o uso destes instrumentos de avaliação, ou de quaisquer outros baseados na mesma legislação, merecem o nosso repúdio e a nossa total oposição por serem não só inadequados como prejudiciais à nossa função de professores", lê-se numa declaração, igualmente enviada a Maria de Lurdes Rodrigues.

Segundo o Conselho Pedagógico, o Ministério da Educação, com as suas reformas, conseguiu "um efeito verdadeiramente subversivo". "Subverteu a essência do trabalho dos professores: em vez de estar a ser orientado para resolver os problemas dos alunos, ele centra-se, agora, nos problemas profissionais dos professores".

"Esperamos que este esforço não seja em vão e que, pelo menos, possa levar, no final deste ano lectivo, à revisão e alteração deste monstro aterrador que nascido do casamento entre a injustiça e o disparate só pode parir injustiças e disparates", lê-se.

Contactado pela Lusa, o assessor de imprensa do Ministério da Educação sublinhou que o Conselho Pedagógico aprovou os instrumentos de registo e que a avaliação "não está parada" no estabelecimento de ensino." (Lusa / EDUCARE| 2008-10-21)

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Jim Brown - Tempestade no Deserto

Apresente-se, por favor.
Chamo-me Jim Brown. Sou veterano do exército americano com dez anos de experiência.

Quando esteve no Iraque?
Fui enviado para Arábia Saudita para apoiar as tropas que deveriam intervir no Iraque. Entrei em serviço em 25 de Setembro e deixei a Arábia Saudita em 16 de Fevereiro de 1991.

O que ocorreu ali que ainda não é conhecido?
Os militares americanos, junto com seus aliados, lançaram uma bomba nuclear de cerca de cinco quilotoneladas de potência na zona de Basrá, no Iraque.

Onde a lançaram?
Entre a cidade de Basra e a fronteira com o Irão.

Quem a lançou?
O serviço foi feito por militares americanos. É uma bomba nuclear de cinco quilotoneladas que tem o nome de ''bomba nuclear de potência variável''.

...


Não tem medo de falar disso?
É preciso entender o que é o medo. Há um ponto em que deve dizer: Basta! E quando você supera essa linha, não é por estar muito certo de si. Você faz ou não faz. Quando estava ao serviço levantei a mão direita e fiz um juramento, afirmando ''Isso é o que defenderei''.

Transcrição parcial da entrevista encontrada em Antreu, 20 de Outubro de 2008

Jim Brown
(Clicar sobre a figura para lançar o vídeo da entrevista)


Mais referências em:
L’accusa del veterano la terza bomba nucleare, RaiNews24, 8 de Outubro de 2008

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Zé Carlos - Acção de Formação do magalhães

A verdadeira apoteose do caciquismo do Ministério da Educação. Maria de Lurdes Rodrigues revela o que entende por autonomia das escolas e a sua visão sobre o futuro de Portugal. O Ministério transformado numa máquina de lavagem cerebral. Professores transformados em crentes imbecilizados. Magnífica peça dos Gatos Fedorentos. Há momentos em que só o sarcasmo em altas doses permite recuperar o equilíbrio psico-somático.




Fonte: Episodio 3 - Zé Carlos - Acção de Formação do magalhães

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segunda-feira, outubro 20, 2008

Previsões políticas para 2009

Laboratoire Européen d'Antecipation Politique
  1. A evolução recente, em alta, do dólar é uma consequência directa e provisória da queda das bolsas mundiais
  2. O "baptismo político" do euro acaba de ter lugar dando uma alternativa "de crise" ao dólar, enquanto "valor refúgio" crível
  3. A dívida pública americana incha de maneira doravante incontrolável
  4. O colapso em curso da economia real dos Estados Unidos impede toda solução alternativa à cessação de pagamentos.
  5. "Forte inflação ou hiper-inflação nos Estados Unidos em 2009", esta é a única questão.


Laboratoire Européen d'Antecipation Politique, Alerte Crise Systémique Globale - Eté 2009 : Cessation de paiement du gouvernement américain, 15 de Outubro de 2008

Tradução para português em Resistir.info, 20 de Outubro de 2008

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Ana Lima - Aos alunos e aos pais

Pais e filhos
- Porque é bom estar precavido contra as informações, tantas vezes falaciosas, dos media e a campanha enganadora, folclórica, do Ministério da Educação …

- Porque, sobretudo, todos queremos o bem dos nossos alunos / dos nossos filhos, e uma escola pública de qualidade, impõe-se uma reflexão, e uma divulgação:

Por que razão acabam os alunos tão prejudicados por estes modelos educativos, por este processo de avaliação dos seus professores?

1. desde logo, as passagens quase administrativas que se antevêem (e a ministra apregoa sem pudor) e que mais tarde conduzirão esta geração (que, ainda por cima, vai competir com alunos de países europeus que levam a educação muito a sério)- apenas - ao desemprego.
Passagens essas (as estatísticas do sucesso), convém saber, que condicionam a avaliação dos professores e a cujo apelo apenas alguns (muito poucos) resistirão.

2. os Cursos de Educação e Formação (CEFS) em que o aproveitamento dos alunos que os integram (os que não conseguem ou não têm apetência por frequentar um curso de currículo ‘normal’) é um ‘dado adquirido’ - e exigido pela tutela, seja qual for o nível das suas aprendizagens (normalmente zero, não nos iludamos…) .
Em que estes alunos, conscientes da inimputabilidade dos seus comportamentos e do ’sucesso’ que lhes é, à partida, garantido, inviabilizam sistematicamente qualquer tentativa de se lhes ensinar o que quer que seja, fazem gala em evidenciar uma total ausência de empenhamento ou de interesse (seja pelo que for) e transformam a vida dos seus professores num inferno.
Futuro, mais que previsível - assegurado, para estes alunos: o desemprego, eventualmente a marginalidade

3. prejudicados, também (e muito!!) virão (estarão já) a ser, todos os alunos, pelo estado de exaustão em que se encontram os seus professores (e ainda agora começámos o ano lectivo), resultante de um processo burocrático que lhes consome tempo e energias para actividades alheias ao trabalho das aulas, por horários de permanência na escola para além de qualquer limite razoável e sem condições mínimas de trabalho, que os impedem de fazer aquilo que verdadeiramente interessaria: preparar aulas e materiais de apoio às aprendizagens dos seus alunos - em casa – que é onde melhor o fazem (onde sempre o fizeram…) , pura e simplesmente porque é aí que têm as condições necessárias.

Desta exaustão dos professores decorrem consequências inevitáveis:

- as aulas mal preparadas ou improvisadas
- a falta de paciência para com os alunos
- a demora na entrega dos testes e outros trabalhos
- a falta de saúde que se seguirá (que está já a afectá-los…)

É bom que se saiba que grande parte dos professores deste país já só se ‘aguenta’ à base de antidepressivos, ansiolíticos, calmantes, e .. cafés. Que grande parte vem tendo já muita dificuldade em dormir. Avaliem, então, do estado em que estarão, quando lidam com os vossos filhos…

É bom que se saiba, também, o que todos nós, professores (se calhar de todas as idades), já receamos: mais cedo ou mais tarde, ou ficamos de baixa, ou morremos! E não, não é exagero! (antes fosse.) Já no ano passado, foram inúmeros os casos de AVC a meio da aula, os casos de ‘n’ professores a terem de ser assistidos nas urgências dos hospitais porque a tensão arterial de repente ‘disparou’, em resultado do stress, do excesso de trabalho, do desgaste em que se traduzem horas e horas improdutivas passadas na escola , e das campanhas difamatórias a que vêm sendo sujeitos desde que esta equipa ministerial entrou em funções.

Então … parece-me claro: o futuro dos nossos alunos (e temo que próximo, muito próximo) só pode ser este: turmas e turmas sem aulas porque o professor ‘rebentou’ .

E levará tempo, muito tempo, até que a escola, o ministério, reponham as baixas. Até que nos substituam por outros masoquistas/ missionários. Esperemos, a bem dos nossos alunos, que não-mercenários.
E não, não haverá Magalhães que lhes valham…

E é precisamente isto, colegas, amigos, mães e pais, que, na minha opinião, os nossos alunos, os seus Encarregados de Educação, deveriam saber. E que está nas nossas -nas vossas- mãos explicar-lhes. Já.

Os filhos das classes ‘privilegiadas’ optarão por colégios particulares. Todos os outros verão o seu futuro seriamente comprometido: pelo baixo nível de exigência, pelo facilitismo, e pelo decorrente clima de indisciplina, de violência, que só poderá agravar-se.

A escola pública portuguesa, que até há bem pouco tempo tinha mais qualidade e melhores profissionais que a privada, irá brevemente reproduzir o modelo das escolas americanas que vemos nos filmes. Irá reproduzir, também, os actos violentos, impensáveis, que ocorrem nas escolas dos EUA, cujos ecos periodicamente nos chegam, carregados de horror.
É esta a meta desta equipa, no ME. Em nome da redução do déficit, da construção de uma imagem eleitoralista, de estatísticas fictícias para ‘Europa ver’.
É este o panorama , o futuro, de que temos, todos, de estar cientes. A tendência que temos, todos, obrigação de contestar, de inverter. Em nome dos nossos alunos, dos nossos filhos, dos filhos deles.

Saudações,

Ana Lima


Ana Lima in A educação do meu umbigo, 20 de Outubro de 2008

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Para cantar na camioneta ... !!

Para todos aqueles que se preparam para se deslocar a Lisboa, aqui envio uma sugestão para animar a caminhada.
Desejando uma boa viagem, na companhia daqueles que não deixam por mãos alheias a reclamação do que sentem como seu.


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Mortalidade Infantil

Mortalidade infantil

Editorial de The New Tork Times de 18 de Outubro de 2008

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domingo, outubro 19, 2008

Deutsche Weller - Esmagar os paraísos fiscais

Com a economia mundial ferida pelo aguilhão da quebra financeira, muitos países desejam esmagar os chamados paraisos fiscais num esforço desesperado para levantar as suas finanças.

Depois de os governos do EUA e da Europa terem salvo numerosos bancos, muitos políticos começam agora a questionar sobre a razão da algumas instituições financeiras continuarem a operar em países que encorajam a evasão fiscal.
Será normal que um banco ao qual caucionamos os empréstimos com os nossos fundos ... continue a operar em paraísos fiscais?
perguntou o Presidente da França, Sarkozy, na semana passada.

Vinte países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) encontrar-se-ão em Paris na próxima terça-feira para discutirem como resolver a questão, se bem que os EUA não participem porque a campanha eleitoral está no seu fim.

Os países publicarão uma carta expressando o seu desejo de esmagar os paraísos fiscais.

Paraísos fiscais são países com uma estrutura de impostos tal que indivíduos ricos ou companhias pagam pouco ou nenhum imposto. Atraem investidores estrangeiros porque o dinheiro pode lá ser depositado com alto nível de secretismo e protecção contra as polícias de investigação internacional.

O Liechtenstein foi recentemente visado de uma forma particular, pelo secretismo contemplado aos investidores e depositantes internacionais das contas nos seus bancos. A OCDE qualificou este ano este pequeno principado como não colaborante.

A Alemanha à caça de fugitivos aos impostos

A Alemanha persegue alguns cidadãos nacionais, incluindo o exonerado Director Nacional dos Correios, pela falta de pagamento dos impostos, protegendo os activos em instituições financeiras do Liechtenstein.

Segundo o grupo de pressão Transparency International France, existem aproximadamente 50 paraísos fiscais em todo o mundo, nos quais operam mais de 400 bancos, dois terços dos bancos de crédito a outros bancos (hedge funds) e dois milhões de empresas de topo ocultam cerce de 10 triliões de dólares de activos financeiros - quatro vezes o Produto Nacional Bruto da França.

A reunião já havia sido agendada várias vezes, mas a crise financeira conferiu-lhe um carácter de urgência.
Não podemos resolver a crise financeira introduzindo maior regulação e mantendo bolsas de desregulação a prosperar,
disse Pascal Saint Amans, chefe da divisão internacional de impostos da OCDE.

Os centros de Offshore não são directamente responsáveis pela crise

Embora não sejam a causa da crise, para Christian Chevagneux, autor de um livro sobre o assunto, os centros de offshore permitiram a bancos como o Britain's Northern Rock, ou bancos de investimento dos EUA como o Bear Stern, ocultarem os seus prejuizos.

Também afectaram a estabilidade do sistema, ao hospedarem a maior parte dos bancos "hedge funds", estando muitos sediados nas ilhas Caimã. Estes fundos não-regulados e especulativos venderam muitos activos nas duas últimas semanas, contribuindo para a queda das acções no mercado e para a baixa dos preços das matérias-primas.

Para os paraísos fiscais, no clima político actual acabaram-se as complacências.
A França e a Alemanha sempre foram hostis aos paraísos fiscais. Se Barack Obama for eleito, os tempos vindouros serão bem duros para ele,
disse Chavagneux aos repórteres.

Com uma postura contrária à do Presidente George W. Bush, o candidato presidencial fez do combate aos paraísos fiscais uma peça chave da sua campanha.

NDA (jornalista da Deutsche Weller), OECD to Crack Down on Tax Havens in Finance Crisis Action, 19 de Outubro de 2008

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sábado, outubro 18, 2008

Concordo, como mãe e professora

Comentário copiado do Blog: Educação do meu umbigo
relativo ao post:
Mais Imbróglios Financeiro-Tecnológicos
(EF)

CARTA DE E.de EDUCAÇÂO A JOSÉ SOCRATES

É longa, mas vale a pena ler

Sr. Engº José Sócrates,

Antes de mais, peço desculpa por não o tratar por Excelência nem por Primeiro-Ministro, mas, para ser franca, tenho muitas dúvidas quanto ao facto de o senhor ser excelente e, de resto, o cargo de Primeiro-ministro parece-me, neste momento, muito pouco dignificado.

Também queria avisá-lo de antemão que esta carta vai ser longa, mas penso que não haverá problema para si, já que você é do tempo em que o Ensino do Português exigia grandes e profundas leituras. Ainda pensei em escrever tudo por tópicos e com abreviaturas, mas julgo que lhe faz bem recordar o prazer de ler um texto bem escrito, com princípio, meio e fim, e que, quiçá, o faça reflectir (passe a falta de modéstia).

Gostaria de começar por lhe falar do “Magalhães”. Não sobre os erros ortográficos, porque a respeito disso já o seu assessor deve ter recebido um e-mail meu. Queria falar-lhe da gratuitidade, da inconsequência, da precipitação e da leviandade com que o senhorEngenheiro anunciou e pôs em prática o projecto a que chama de E-escolinha.

O senhor fala em Plano Tecnológico e, de facto, eu tenho visto a tecnologia, mas ainda não vi plano nenhum. Senão, vejamos a cronologia dos factos associados ao projecto “Magalhães”. No princípio do mês de Agosto, o senhor engenheiro apareceu na televisão a anunciar o projecto e-escolinhas e a sua ferramenta: o portátil Magalhães. No dia 18 de Setembro (quinta-feira) ao fim do dia, o meu filho traz na mochila um papel dirigido aos encarregados de educação, com apenas quatro linhas de texto informando que o “Magalhães” é um projecto do Governo e que, dependendo do escalão de IRS, o seu custo pode variar entre os zero e os 50 euros. Mais nada! Seguia-se um formulário com espaço para dados como nome do aluno, nome do encarregado de educação, Escola, concelho, etc. E, por fim, a oportunidade de assinalar, com uma cruzinha, se pretendemos ou não adquirir o “Magalhães”. No dia 22 de Setembro (segunda-feira), ao fim do dia, o meu filho traz um novo papel, desta vez uma extensa carta a anunciar a visita, no dia seguinte, do primeiro-ministro para entregar os primeiros “Magalhães” na EB1 Padre Manuel de Castro. Novamente uma explicação respeitante aos escalões do IRS e ao custo dos portáteis. No dia 23 de Setembro (terça-feira), o meu filho não traz mais papéis, traz um “Magalhães” debaixo do braço.

Ora, como é fácil de ver, tudo aconteceu num espaço de três dias úteis em que as famílias não tiveram oportunidade de obter esclarecimentos sobre a futura utilização e utilidade do “Magalhães”. Às perguntas que colocámos à professora sobre o assunto, ela não soube responder. Reunião de esclarecimento, nunca houve nenhuma.

Portanto, explique-me, senhor engenheiro: o que é que o seu Governo pensou para o “Magalhães”? Que planos tem para o integrar nas aulas? Como vai articular o seu uso com as matérias leccionadas? Sabe, é que 50 euros talvez seja pouco para se gastar numa ferramenta de trabalho, mas, decididamente, e na minha opinião, é demasiado para se gastar num brinquedo. Por favor, senhor engenheiro, não me obrigue a concluir que acabei de pagar por uma inutilidade, um capricho seu, uma manobra de campanha eleitoral, um espectáculo de fogo de artifício do qual só sobra fumo e o fedor intoxicante da pólvora.

Seja honesto com os portugueses e admita que não tem plano nenhum. Admita que fez tudo tão à pressa que nem teve tempo de esclarecer as Escolas e os professores. E não venha agora dizer-me que cabe aos pais aproveitarem esta maravilhosa oportunidade que o Governo lhes deu e ensinarem os filhos a lidar com as novas tecnologias. O seu projecto chama-se e-escolinha, não se chama e-familiazinha! Faça-lhe jus! Ponha a sua equipa a trabalhar, mexa-se, credibilize as suas Iniciativas!

Uma coisa curiosa, senhor engenheiro, é que tudo parece conspirar a seu favor nesta sua lamentável obra de empobrecimento do ensino assente em medidas gratuitas.

Há dias arrisquei-me a ver um episódio completo da série Morangos com Açúcar. Por coincidência, apanhei precisamente o primeiro episódio da nova série que significa, na ficção, o primeiro dia de aulas daquela miudagem. Ora, nesse primeiro dia de aulas, os alunos conheceram a sua professora de matemática e o seu professor de português. As imagens sucediam-se alternando a aula de apresentação de matemática por contraposição à de português. Enquanto a professora de matemática escrevia do quadro os pressupostos da sua metodologia - disciplina, rigor e trabalho - o professor de português escrevia no quadro os pressupostos da sua - emoção, entrega e trabalho. Ora, o que me faz espécie, senhor engenheiro, é que a personagem da professora de matemática é maldosa, agressiva e antiquada, enquanto que o professor de português é um tipo moderno e bué de fixe. Então, de acordo com os princípios do raciocínio lógico, se a professora de matemática é maldosa e agressiva e os seus pressupostos são disciplina e rigor, então a disciplina e o rigor são coisas negativas. Por outro lado, se o professor de português é bué de fixe, então os pressupostos da emoção e da entrega são perfeitos. E de facto era o que se via. Enquanto que na aula de matemática os alunos bufavam, entediados, na aula de português sorriam, entusiasmados.

Disciplina e rigor aparecem, assim, como conceitos inconciliáveis com emoção e entrega, e isto é a maior barbaridade que eu já vi na minha vida. Digo-o eu, senhor engenheiro, que tenho uma profissão que vive das emoções, mas onde o rigor é “obstinado”, como dizem os poetas. Eu já percebi que o ensino dos dias de hoje não sabe conciliar estes dois lados do trabalho. E, não o sabendo, optou por deixar de lado a disciplina e o rigor. Os professores são obrigados a acreditar que para se fazer um texto criativo não se pode estar preocupado com os erros ortográficos. E que para se saber fazer uma operação aritmética não se pode estar preocupado com a exactidão do seu resultado. Era o que faltava, senhor engenheiro!

Agora é o momento em que o senhor engenheiro diz de si para si: mas esta mulher é um Velho do Restelo, que não percebe que os tempos mudaram e que o ensino tem que se adaptar a essas mudanças? Percebo, senhor engenheiro. Então não percebo? Mas acontece que o que o senhor engenheiro está a fazer não é adaptar o ensino às mudanças, você está a esvaziá-lo de sentido e de propósitos. Adaptar o ensino seria afinar as metodologias por forma a torná-las mais cativantes aos olhos de uma geração inquieta e voltada para o imediato. Mas nunca diminuir, nunca desvalorizar, nunca reduzir ao básico, nunca baixar a bitola até ao nível da mediocridade.

Mas e por falar em Velho do Restelo…

Li, há dias, numa entrevista com uma professora de Literatura Portuguesa, que o episódio do Velho do Restelo foi excluído do estudo d’Os Lusíadas. Curioso, porque este era o episódio que punha tudo em causa, que questionava, que analisava por outra perspectiva, que é algo que as crianças e adolescentes de hoje em dia estão pouco habituados a fazer. Sabem contrariar, é certo, mas não sabem questionar. São coisas bem diferentes: contrariar tem o seu quê de gratuito; questionar tem tudo de filosófico. Para contrariar, basta bater o pé. Para questionar, é preciso pensar.

Tenho pena, porque no meu tempo (que não é um tempo assim tão distante), o episódio do Velho do Restelo, juntamente com os de Inês de Castro e da Ilha dos Amores, era o que mais apaixonava e empolgava a turma. Eram três episódios marcantes, que quebravam a monotonia do discurso de engrandecimento da nação e que, por isso, tinham o mérito de conseguir que os alunos tivessem curiosidade em descodificar as suas figuras de estilo e desbravar o hermetismo da linguagem. Ainda hoje me lembro exactamente da aula em que começámos a ler o episódio de Inês de castro e lembro-me das palavras da professora Lídia, espicaçando-nos, estimulando-nos, obrigando-nos a pensar. E foi há 20 anos.

Bem sei que vivemos numa era em que a imagem se sobrepõe à palavra, mas veja só alguns versos do episódio de Inês de Castro, veja que perfeita e inequívoca imagem eles compõem:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano d’alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito (…)

Feche os olhos, senhor engenheiro, vá lá, feche os olhos. Não consegue ver, perfeitamente desenhado e com uma nitidez absoluta, o rosto branco e delicado de Inês de Castro, os seus longos cabelos soltos pelas costas, o corpo adolescente, as mãos investidas num qualquer bordado, o pensamento distante, vagueando em delícias proibidas no leito do príncipe? Não vê os seus olhos que de vez em quando escapam às linhas do bordado e vão demorar-se na janela, inquietos de saudade, à espera de ver D. Pedro surgir a galope na linha do horizonte? E agora, se se concentrar bem, não vê uma nuvem negra a pairar sobre ela, não vê o prenúncio do sangue a escorrer-lhe pelos fios de cabelo? Não consegue ver tudo isto apenas nestes quatro versos?

Pois eu acho estes quatro versos belíssimos, de uma simplicidade arrebatadora, de uma clareza inesperada. É poesia, senhor engenheiro, é poesia! Da mais nobre, grandiosa e magnífica que temos na nossa História. Não ouse menosprezá-la. Não incite ninguém a desrespeitá-la.

Bem, admito que me perdi em divagações em torno da Inês de Castro. O que eu queria mesmo era tentar perceber porque carga de água o Velho do Restelo desapareceu assim. Será precisamente por estimular a diferença de opiniões, por duvidar, por condenar? Sabe, não tarda muito, o episódio da Ilha dos Amores será também excluído dos conteúdos programáticos por “alegado teor pornográfico” e o de Inês de Castro igualmente, por “incitamento ao adultério e ao desrespeito pela autoridade”.

Como é, senhor engenheiro? Voltamos ao tempo do “lápix” azul? E já agora, voltando à questão do rigor e da disciplina, da entrega e da emoção: o senhor engenheiro tem ideia de quanta entrega e de quanta emoção Luís de Camões depôs na sua obra? E, por outro lado, o senhor engenheiro duvida da disciplina e do rigor necessários à sua concretização? São centenas e centenas de páginas, em dezenas de capítulos e incontáveis estrofes com a mesma métrica, o mesmo tipo de rima, cada palavra escolhida a dedo… o que implicou tudo isto senão uma carga infinita de disciplina e rigor?

Senhor engenheiro José Sócrates: vejo que acabo de confiar o meu filho ao sistema de ensino onde o senhor montou a sua barraca de circo e não me apetece nada vê-lo transformar-se num palhaço. Bem, também não quero ser injusta consigo. A verdade é que as coisas já começaram a descarrilar há alguns anos, mas também é verdade que você está a sobrealimentar o crime, com um tirinho aqui, uma facadinha ali, uma desonestidade acolá.

Lembro-me bem da época em que fiz a minha recruta como jornalista e das muitas vezes em que fui cobrir cerimónias e eventos em que você participava. Na altura, o senhor engenheiro era Secretário de Estado do Ambiente e andava com a ministra Elisa Ferreira por esse Portugal fora, a inaugurar ETAR’s e a selar aterros. Também o vi a plantar árvores, com as suas próprias mãos. E é por isso que me dói que agora, mais de dez anos depois, você esteja a dar cabo das nossas sementes e a tornar estéreis os solos que deveriam ser férteis.

Sabe, é que eu tenho grandes sonhos para o meu filho. Não, não me refiro ao sonho de que ele seja doutor ou engenheiro. Falo do sonho de que ele respeite as ciências, tenha apreço pelas artes, almeje a sabedoria e valorize o trabalho. Porque é isso que eu espero da escola. O resto é comigo.

Acho graça agora a ouvir os professores dizerem sistematicamente aos pais que a família deve dar continuidade, em casa, ao trabalho que a escola faz com as crianças. Bem, se assim fosse eu teria que ensinar o meu filho a atirar com cadeiras à cabeça dos outros e a escrever as redacções em linguagem de sms. Não. Para mim, é o contrário: a escola é que deve dar continuidade ao trabalho que eu faço com o meu filho. Acho que se anda a sobrevalorizar o papel da escola. No meu tempo, a escola tinha apenas a função de ensinar e fazia-o com competência e rigor. Mas nos dias que correm, em que os pais não têm tempo nem disposição para educar os filhos, exige-se à escola que forme o seu carácter e ocupe todo o seu tempo livre. Só que infelizmente ela tem cumprido muito mal esse papel.

A escola do meu tempo foi uma boa escola. Hoje, toda a gente sabe que a minha geração é uma geração de empreendedores, de gente criativa e com capacidade iniciativa, que arrisca, que aposta, que ambiciona. E não é disso que o país precisa? Bem sei que apanhámos os bons ventos da adesão à União Europeia e dos fundos e apoios que daí advieram, mas isso por si só não bastaria, não acha? E é de facto curioso: tirando o Marco cigano, que abandonou a escola muito cedo, e a Fatinha que andava sempre com ranhoca no nariz e tinha que tomar conta de três irmãos mais novos, todos os meus colegas da primária fizeram alguma coisa pela vida. Até a Paulinha, que era filha da empregada (no meu tempo dizia-se empregada e não auxiliar de acção educativa, mas, curiosamente, o respeito por elas era maior), apesar de se ter ficado pelo 9º ano, não descansou enquanto não abriu o seu próprio Pão Quente e a ele se dedicou com afinco e empenho. E, no entanto, levámos reguadas por não sabermos de cor as principais culturas das ex-colónias e éramos sujeitos a humilhação pública por cada erro ortográfico. Traumatizados? Huuummm… não me parece. Na verdade, senhor engenheiro, tenho um respeito e uma paixão pela escola tais que, se tivesse tempo e dinheiro, passaria o resto da minha vida a estudar.

Às vezes dá-me para imaginar as suas conversas com os seus filhos (nem sei bem se tem um ou dois filhos…) e pergunto-me se também é válido para eles o caos que o senhor engenheiro anda a instalar por aí. Parece que estou a ver o seu filho a dizer-lhe: ó pai, estou com dificuldade em resolver este sistema de três equações a três incógnitas… dás-me uma ajuda? E depois, vejo-o a si a responder com a sua voz de homilia de domingo: não faz mal, filho… sabes escrever o teu nome completo, não sabes? Então não te preocupes, é perfeitamente suficiente…

Vendo as coisas assim, não lhe parece criminoso o que você anda a fazer? E depois, custa-me que você apareça em praça pública acompanhado da sua Ministra da Educação, que anda sempre com aquele ar de infeliz, de quem comeu e não gostou, ambos com o discurso hipócrita do mérito dos professores e do sucesso dos alunos, apoiados em estatísticas cuja real interpretação, à luz das mudanças que você operou, nos apresenta uma monstruosa obscenidade. Ofende-me, sabe? Ofende-me por me tomar por estúpida.

Aliás, a sua Ministra da Educação é uma das figuras mais desconcertantes que eu já vi na minha vida. De cada vez que ela fala, tenho a sensação que está a orar na missa de sétimo dia do sistema de ensino e que o que os seus olhos verdadeiramente dizem aos pais deste Portugal é apenas “os meus sentidos pêsames”.

Não me pesa a consciência por estar a escrever-lhe esta carta. Sabe, é que eu não votei em si para primeiro-ministro, portanto estou à vontade. Eu votei em branco. Mas, alto lá! Antes que você peça ao seu assessor para lhe fazer um discurso sobre o afastamento dos jovens da política, lembre-se, senhor engenheiro: o voto em branco não é o voto da indiferença, é o voto da insatisfação! Mas, porque vos é conveniente, o voto em branco é contabilizado, indiscriminadamente, com o voto nulo, que é aquele em que os alienados desenham macaquinhos e escrevem obscenidades.

Você, senhor engenheiro, está a arriscar-se demasiado. Portugal está prestes a marcar-lhe uma falta a vermelho no livro de ponto. Ah… espere lá… as faltas a vermelho acabaram… agora já não há castigos…

Bem, não me vou estender mais, até porque já estou cansada de repetir “senhor engenheiro para cá”, “senhor engenheiro para lá”. É que o meu marido também é engenheiro e tenho receio de lhe ganhar cisma.

Esta carta não chegará até si. Vou partilhá-la apenas e só com os meus E-leitores (sim, sim, eu também tenho os meus eleitores) e talvez só por causa disso eu já consiga hoje dormir melhor. Quanto a si, tenho dúvidas.

Para terminar, tenho um enorme prazer em dedicar-lhe, aqui, uma estrofe do episódio do Velho do Restelo. Para que não caia no esquecimento. Nem no seu, nem no nosso.

A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?



Atenciosamente e ao abrigo do artigo nº 37 da Constituição da República Portuguesa,

Uma mãe preocupada

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