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sábado, maio 30, 2009

Medina Carreira e o estado das coisas

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quinta-feira, maio 28, 2009

Eleições europeias: direito de voto para as crianças?

No próximo dia 7 de Junho terão lugar as próximas eleições europeias. O Parlamento Europeu é a mais alta instituição democrática das nações europeias. Esta instituição avalia e ratifica os acordos internacionais aos quais a União Europeia adere e negocia, vigia e modifica a legislação produzida a nível europeu, que constitui por transposição ulterior 70% da actividade legislativa de cada país membro da UE. O Parlamento Europeu é pois um órgão crítico para a determinação das orientações fundamentais da nossa sociedade, e foi nos últimos anos o palco de debates e campanhas intensas sobre questões de saúde (reach), economia ou de liberdades civis (patentes , direito de acesso à internet, etc).

Sendo a única instituição europeia constituída por via de sufrágio directo, as decisões do parlamento europeu são muito mais sensíveis às campanhas de sensibilização da parte de cidadãos e de organizações não governamentais do que outros órgãos europeus como por exemplo a Comissão Europeia, como foi verificado durante o voto das directivas mais polémicas.

Apesar da importância crucial do Parlamento Europeu para a evolução da nossa sociedade, as eleições europeias sofrem de uma significativa falta de participação de uma parte do eleitorado. É por isso que eu proponho que o direito de voto seja alargado a todas as crianças sem limite de idade. Com a utilização de sistemas de vídeo e áudio adequados, até deveria ser possível permitir a crianças ainda analfabetas de poder votar sozinhas sem dificuldade, uma vez que elas são capazes de jogar jogos de vídeo por consola com idades muito precoces. Desta forma a participação às eleições seria bastante mais elevada, sem que o funcionamento democrático da nossa sociedade seja grandemente alterado.

Alguns cépticos contestarão da falta de experiência e de capacidade de julgamento das crianças comparadas com os adultos, mas estudos recentes mostram que o eleitorado adulto vota de maneira indistinguível com aquela das crianças .

Com efeito, investigadores na Suíça decidiram comparar a maneira como as crianças e os adultos votam, e avaliar a relação entre esses resultados e os resultados de eleições reais. Eles utilizaram fotografias de candidatos às eleições parlamentares francesas (na fase de segunda volta, em que só há dois candidatos por posição elegível), e perguntaram a crianças suíças (5 - 13 anos) de escolher qual dos dois candidatos propostos é que eles escolheriam como "capitão" para uma uma viagem entre Tróia e Ítaca (no quadro de um jogo de computador). O resultado da escolha das crianças foi capaz de prever os resultados das eleições reais com uma probabilidade de 0,71. O simples facto de pedir a crianças de escolher entre duas fotos foi não só capaz de prever os resultados das eleições reais, mas ainda de prever a margem de vitória com um grande nível de confiança (P<0,001).


Quando os investigadores fizeram o mesmo teste com adultos, os resultados foram idênticos, sugerindo que quando as crianças e os adultos escolhem entre fotos de dois desconhecidos, eles utilizam provavelmente os mesmos métodos cognitivos. Estes resultados também sugerem que durante as eleições parlamentares francesas, o eleitorado utilizou pouco mais informação do que aquela fornecida pela foto do candidato para efectuar a sua escolha.

Perante estes resultados, acho que a democracia e o governo de Portugal não sofrerão grande dano adicional pela participação das crianças às eleições europeias ou legislativas deste ano.

E para aqueles que gostariam de votar segundo critérios mais racionais do que a aparência do candidato, ou o rótulo ideológico* (usando critérios como competência, desempenho, projecto político)? A única solução é de investigar por si próprio quais dos candidatos propostos serão os mais apropriados para ter um bom desempenho durante a legislatura e de levar a cabo o tipo de agenda que nos interessa.

Isso só é possível tendo informação objectiva sobre os candidatos. Ler o programa eleitoral de um partido é tão fiável como acreditar nas boas resoluções do ano novo. O mais útil é ainda investigar as actividades e desempenho passado dos candidatos, em geral indicadoras do seu desempenho futuro.

É por estas razões que eu apelo à contribuição dos leitores deste bilhete para o seguinte: dêem links para fontes de informação sobre o desempenho passado dos candidatos actuais à eleições parlamentares europeias, para que nós tenhamos pelo menos um resquício de razão de dizer que votámos de maneira mais responsável do que crianças...

Aqui vai a minha contribuição:



Como podem ver, no estado actual, não poderei votar de maneira mais responsável do que uma criança, daí o meu apelo aos leitores deste blogo.

* votar segundo o rótulo ideológico pode parecer mais racional do que basear-se unicamente na aparência de candidato, mas na realidade esse critério também é pouco eficaz e traduz uma certa preguiça intelectual: não é porque um candidato utiliza um certo rótulo ideológico que ele vai tomar decisões compatíveis com esse rótulo, e de qualquer maneira mesmo entre candidatos de um mesmo partido todos não têm as mesmas opiniões, competência, honestidade ou energia empreendedora.

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quarta-feira, maio 27, 2009

Em tempo de crise as boas empresas brilham

É com muito prazer que vejo a OutSystems (uma empresa portuguesa) começar a brilhar no estrangeiro depois do seu sucesso nacional:
Em tempos de crise, os consumidores tornam-se mais cautelosos e responsáveis com a escolha dos seus fornecedores. Por isso é muito mais fácil os bons fornecedores distinguirem-se dos maus fornecedores.

Este momento é ideal para todas as empresas que queiram distinguir-se pela qualidade do trabalho que fazem. Boa sorte a todas elas.

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Rui Correia - Manifestação dos professores

Tenho percebido um pouco por todo o lado que os professores andam soturnos porque sussurram que a manifestação de dia 30 não vai ter por lá cento e tal mil pessoas; e que era muito importante que lá estivessem cento e tal mil pessoas porque aquilo que os juntou uma, duas vezes, é o mesmo que agora ainda todos pensam. Dizem que já muitos entregaram objectivos, elegeram cgts, recrutaram directores e agora têm vergonha de gritar num lado uma coisa que na prática não cumpriram noutro e que, por essas e por outras, ficou a unidade amputada, a classe dividida, e não vai ser possível juntar outra vez cento e tal mil pessoas.

Desculpem-me os activistas e os amedrontados pela sua própria consciência mas acho este raciocínio completamente pacóvio.

Antes de mais nada, sempre que ouço falar deste embaraço antecipado que sentem por esta manifestação não ir reunir tanta gente como deveria, creio que alguém se está a esquecer do que realmente significa juntar em Portugal cem mil pessoas de uma mesma classe profissional. Parecemos um daqueles soldados napoleónicos que, depois de ter encontrado a pedra de Rosetta, anos depois do achado ainda não tinha a noção do que fizera por uma civilização inteira. Aqui, como se percebe, deixo que entre em cena a minha costela de historiador. Creio ser indispensável recordar que nunca mais nada do género se fará em Portugal tão cedo e que os professores fizeram história, quer isso se reconheça, quer não. E que isso, ninguém nos tira.

Ou seja, essa vitória, que ninguém esperaria lograr, foi conseguida. E dessa vitória resultaram importantes conquistas. A senhora ministra, em pleno Parlamento, mostrou-se disponível para deixar cair o seu próprio modelo, “mas não este ano”. A senhora ministra recuou nas mais aberrantes propostas que o modelo de avaliação inicialmente exigia que fossem cumpridas. E foi obrigada a fazê-lo por duas vezes. E isto não aconteceu por causa de outra coisa que não fosse a nossa justa campanha.

Em todos os partidos da oposição, em todas as crónicas dos opinion-makers, é voz corrente que esta equipa ministerial é duma incompetência arrogante e desorganizada que não tem paralelo. Esta convicção unânime não nasceu do nada; estes incapazes ficarão para a história por causa da maior incúria legislativa e desorientação educativa desde que há democracia em Portugal. De nada poderão orgulhar-se. Já viram? Nada. Nem uma coisinha pequenina. Por seu turno, os professores já pertencem à melhor história recente deste país, como aqueles que produziram a maior manifestação profissional de sempre. E isto, meus amigos, digo-o com a serenidade de quem passou grande parte da sua vida a pensar como devem as coisas ficar escritas em livros de História.

A honorabilidade dos professores, da sua união, foi tão impressionante e tão eloquente que nada, por muito irrisória que fosse a manifestação de dia 30, nada pode minimizar o que mais importa: os professores ficam na história pelas melhores razões e este governo perde a sua desejada maioria por causa dos professores. Repito-o, isto só acontece por causa do que já fizemos. A culpa é toda nossa. Dizer-se que estamos soturnos com os nossos insucessos é, por isso mesmo, historicamente, uma miopia grosseira.

Se até aqui nos erguemos contra um modelo de gestão e de avaliação estúpidos, agora juntamo-nos para lembrar a todo o país, aos nossos alunos, que sempre que nos unamos com aquela dignidade cívica que demonstrámos antes, o veredicto da história ser-nos-á devidamente lisonjeador.

Diverte-me muitíssimo que nos reunamos para dizer adeus a este ministério. Porque é o que irá acontecer. Aqui há uns tempos sugeri um modelo de manifestação mais festivo, com canções e alegria. Era por isto. Por saber que há hoje, mais do que antes havia, muitas razões para esse júbilo.

Voltarmos a Lisboa exige, portanto, uma outra atitude: é uma celebração antecipada. Por mim, vou a Lisboa deitar foguetes antes da festa. E irei levando comigo essa minha saloia satisfação, porque sei que esta, ao contrário de todas as outras, representa o selo histórico que há muito todos os professores desejam carimbar: o adeus a esta equipa ministerial.

Cada campanha tem sempre muitos desfechos. A história está cheia disso. Nunca ninguém ganha tudo. Acho que há quem julgue que devia ser assim com os professores. Isso é parvo. Ganhamos umas. Perdemos outras. É por isso que a campanha continua. Mas uma delas, uma das mais ambicionadas, é nossa e diz-se assim:

“Adeus”

No próximo dia 30 erguemo-nos de novo para dizermos a todos os portugueses e à história que os professores podem parecer David, mas Golias vai cair. Vejam bem, até a Bíblia foi escrita só para falar de coisas destas. Por isso vos digo: com OIs entregues ou não, com directores ou com caps (e, aqui em Sto Onofre, não podemos gastar os confettis todos porque um dia destes comemoraremos também o CAPs LOCK), com fichas de avaliação ou não, só se fossemos uns bimbos é que não nos juntávamos para celebrar a coisa devidamente.


Rui Correia em A educação do meu umbigo

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Bora ao teatro!

Olá todos = )

Venho divulgar a peça onde participo.
É um pouco em ima da hora mas é assim que é feita a vida = P

Chama-se "Eu (a natureza é a natureza)"

Vai haver duas representações esta semana:
5a feira - 20h30
6a feira - 21h30

Na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Campo Grande), Edificio C3

Entrada livre!

Não aconselho a crianças, mas aconselho a todos os outros.
Garanto umas risadas...

Aqui está a descrição que foi dada para a festa Darwin na glubenkian:
"Um grupo de pessoas, escolhidas ao acaso, participa num jogo de improvisos, uma espécie de “o rei manda”. Jogam segundo regras que eles próprios criaram. Conhecem-se? Gostam uns dos outros? Será que jogam efectivamente? Nos pés uma meia de cada cor, excepto um. Um viagem pela condição humana, pelo animal que habita em cada um de nós."

Aproveitem! ; )

terça-feira, maio 26, 2009

E. Tousain e D. Millet - Porque cresce a fome no século XXI?



Como explicar que a fome ainda exista no século XXI? Uma em cada sete pessoas no planeta está permanentemente com fome.

As causas são bem conhecidas: uma profunda injustiça na distribuição da riqueza e a monopolização da terra por uma pequena minoria de grandes latifundiários. Segundo a Food and Agriculture Organization (FAO), 963 milhões de pessoas sofreram de fome em 2008. Paradoxalmente, estas pessoas vivem sobretudo nas zonas rurais. Em geral, trata-se de camponeses que não possuem terra, ou não possuem suficiente terra ou não dispõem de meios para a cultivarem de forma rentável.

O que provocou a crise alimentar em 2007-2008?



É importante realçar que, entre 2007 e 2008, o número de pessoas com fome aumentou em 140 milhões. Este aumento deveu-se à explosão dos preços dos alimentos. Em muitos países, os preços de venda a retalho dos alimentos cresceu 50% ou mesmo mais.

Porquê este aumento? Para responder a esta questão, é importante compreender o que se passou nos últimos três anos. Só então é possível delinear políticas alternativas adequadas.

Por um lado, as autoridades públicas no Hemisfério Norte aumentaram os subsídios para os agro-combustíveis (ardilosamente denominados bio-combustíveis, já que nada têm de orgânico). Subitamente, tornou-se rentável substituir culturas de subsistência por culturas de oleaginosas ou desviar parte da cultura de grãos (milho, trigo, etc) para a produção de agro-combustíveis.

Por outro lado, após o rebentamento da bolha imobiliária nos Estados Unidos da América (EUA), com repercussões no resto do mundo, os investimentos mais importantes (fundos de pensões, investimentos bancários, fundos livres -hedge funds - etc.) desviaram a sua atenção para a especulação em mercados de futuros onde se negociavam contratos de preços dos alimentos (existem três mercados de futuros principais nos EUA: Chicago, Cidade do Kansas e Miniápoles). É, por isso, urgente que os cidadãos tomem iniciativas conducentes a proibir a especulação dos preços dos alimentos. Apesar de a especulação ter atingido o seu auge em 2008, iniciando o declínio em meados desse ano, os preços de retalho não seguiram essa tendência. A grande maioria da população mundial dispõe de rendimentos muito baixos e continua afectada pelas consequências dramáticas do crescimento dos preços dos alimentos verificado entre 2007 e 2008.


As dezenas de milhões de excedentes anunciados para 2009 e 2010 em todo o mundo tornarão a situação ainda mais grave. Em Abril de 2009, a FAO informou o G8 que o número de pessoas com fome crónica se previa que viesse a aumentar entre 75 a 100 milhões no ano corrente, conduzindo a um total superior a mil milhões. Para contrariar esta tendência, era necessário que as autoridades públicas mantivessem os preços sob controlo.


O aumento da fome no mundo não se deve, até ao momento, a alterações climáticas. Mas este factor trará consequências pesadas para o futuro em certas regiões do mundo, especialmente nas regiões tropical e sub-tropical. A agricultura nas zonas temperadas será menos afectada. A solução baseia-se na redução drástica das emissões que contribuem para o efeito de estufa (o IPPC recomenda uma redução de 80% destas emissões para os países industrializados e de 20% para os restantes).

É possível erradicar a fome?



Erradicar a fome é inteiramente possível. As soluções para se alcançar esta meta residem na soberania alimentar e na reforma agrária. Ou seja, dar prioridade à produção local na alimentação das populações e controlar as importações e as exportações.

A soberania alimentar tem de constituir uma preocupação central nas decisões políticas dos governos. Tem de se privilegiar as quintas familiares, usando técnicas concebidas para a produção de alimentos orgânicos. Além disso, assim se conseguiria produtos de boa qualidade: nada de transgénicos, pesticidas, herbicidas ou fertilizantes químicos. Para tanto, 2 mil milhões de agricultores devem dispor de terra suficiente para nela trabalhar, trabalhando em benefício próprio em vez de produzirem cereais para os grandes latifúndios, multinacionais dos agro-negócios ou os grandes distribuidores. Por meio de incentivos públicos, estas pessoas deveriam dispor dos meios necessários para trabalharem na sua terra sem a esgotar.

É necessária uma reforma agrária. Estão desesperadamente carentes dessa reforma o Brasil, a Bolívia, o Paraguai, o Peru a Ásia e alguns países de África. Tal reforma agrária promoveria a redistribuição das terras, a proibição dos latifúndios e a canalização de meios de apoio público para os agricultores.

Deve notar-se que o Fundo Monetário Internacional (FMI) e, sobretudo, o Banco Mundial são largamente responsáveis pela actual crise alimentar, pois recomendaram aos governos do hemisfério Sul que desactivassem os seus grandes silos de cereais outrora usados para apoiarem o mercado doméstico em caso de escassez ou subida acentuada e repentina dos preços. O Banco Mundial e o FMI encorajaram os governos do Sul a fecharem as caixas de crédito agrícola estatal e a desviar esses meios financeiros para benefício de associações de grandes proprietários (muitas vezes também comerciantes) ou para bancos privados, praticando juros exorbitantes. Disto resultou o grande endividamento de muitos agricultores na Índia, na Nicarágua, no México, no Egipto e em muitos países da África sub-sariana. Segundo relatórios oficiais, o alto nível de endividamento constituiu a principal causa do suicídio de 150.000 agricultores verificado na Índia na década passada. Este foi o país em que o Banco Mundial conseguiu persuadir as autoridades a suprimir as agências de crédito público aos agricultores. E há mais: Nos últimos 4 anos, o Banco Mundial e o FMI também coagiram os países tropicais a reduzir a sua produção de trigo, arroz e milho e substituí-la por produtos de exportação (cacau, café, chá, bananas, amendoins, flores, etc).

Finalmente, para coroar os seus esforços a favor dos agro-negociantes e dos países grandes exportadores (começando pelos EUA, Canadá e Europa Ocidental), também persuadiram os governos a abrir as suas fronteiras à entrada de bens alimentares altamente subsidiados pelos governos do Norte. Isto conduziu muitos produtores do Sul à ruína e a uma severa redução da produção de cereais de subsistência autónoma.

Em resumo, é necessário proteger a segurança alimentar e empreender a reforma agrária. A produção de agro-combustíveis deve ser abandonada e os subsídios estatais para quem os produz eliminados. É necessário também recompor o sistema de reservas alimentares no Sul (especialmente de cereais como trigo, arroz, milho...), restaurar as agências de crédito agrícola estatais e regular os preços dos bens alimentares. O Estado deve também garantir preços de aquisição da produção aos pequenos agricultores capazes de promover a melhoria das suas condições de vida. O Estado deve alargar a rede de serviços públicos às zonas rurais (saúde, educação, comunicações, cultura, embriões de bancos estatais, etc). As autoridades públicas são perfeitamente capazes de garantir quer os preços subsidiados para na produção quer os preços de retalho no consumo suficientemente elevados para proporcionar aos produtores ganhos apropriados.

Não será esta luta contra a fome parte de uma luta muito mais geral?



Não é de esperar resultados sérios neste combate contra a fome sem que se considerem as causas fundamentais que conduziram à situação actual. A dívida é uma destas causas. A publicidade e fanfarra em torno desta questão, especialmente nas cimeiras dos últimos anos do G8 e do G20, foi incapaz de levantar o véu que cobre este persistente mistério. A crise actual está a degradar ainda mais a situação dos países pouco desenvolvidos, já penalizados pelos custos da dívida, sendo de prever que novas dívidas venham a ser contraídas a Sul. A dívida teve como consequência que os países do Sul, tantas vezes ricos em recursos naturais e humanos, se empobrecessem. A dívida é a pilhagem organizada, a que tem que se pôr cobro urgentemente.

De facto, a mecânica infernal da dívida constitui o obstáculo mais importante para que as necessidades básicas das pessoas sejam satisfeitas, incluindo o direito a uma alimentação decente. Sem dúvida, a satisfação das necessidades básicas deve ser colocada acima de quaisquer outras considerações, sejam elas geo-estratégicas ou financeiras. De um ponto de vista moral, os direitos dos credores, pessoas com meios privados ou especuladores pesam bem pouco se comparadas aos direitos fundamentais de seis mil milhões de cidadãos esmagados pela máquina implacável da dívida.

É imoral pedir a países empobrecidos pela crise global e pela qual não foram responsáveis, que afectem uma parte significativa dos seus recursos para recompensar credores ricos (sejam do Norte ou do Sul), em vez de os usarem para as suas necessidades fundamentais. O carácter imoral da dívida também resulta de, muitas vezes, elas terem sido contraídas pela mão de regimes não-democráticos, que não usaram o dinheiro que foi entregue no interesse da sua própria população tendo, em vez disso, desviado grandes somas com apoio tácito ou mesmo com a participação activa dos estados do Norte, do Banco Mundial ou do FMI. Os credores dos países industrializados mais fortes pagaram subornos, certos da cobertura que tais regimes davam à corrupção. Não estão em condições de exigir dos povos desses países qualquer pagamento de retorno que tenha tido origem nas suas práticas imorais e ilegais.

Para resumir, a dívida é uma das formas pelas quais se instala de novo o colonialismo em detrimento do povo. É uma inovação no rol das muitas injustiças históricas já perpetradas pelos países ricos: escravidão, extremínio de populações indígenas, grilhões coloniais, pilhagem de matérias-primas, destruição da biodiversidade e sonegação do know-how dos agricultores (por meio das patentes de produtos agrícolas do Sul, como o arroz Basmati da Índia, para proveito da corporações multinacionais da agricultura no Norte), pilhagem de bens culturais, fuga de cérebros, etc. Em nome da Justiça, é tempo de substituir a lógica da sujeição pela lógica da redistribuição da riqueza.

O G8, o FMI, o Banco Mundial e o Clube de Paris impõem as suas próprias verdades, a sua própria justiça, na qual são simultaneamente juiz e parte interessada. Confrontados pela crise, o G20 pegou no bastão e procura recolocar o desacreditado FMI no centro do seu campo de acção política e económica. Temos que pôr cobro a esta injustiça que aproveita aos opressores, sejam do Norte ou do Sul.

Eric Toussaint e Damien Millet, Why is There Rampant Famine in the 21st Century?

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quinta-feira, maio 21, 2009

Um passeio domingueiro?

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Há quem se queixe de falta de companhia para passear. Não será o caso deste ciclista , em Tete, Moçambique. Ou talvez vá simplesmente mudar o bichinho de morada!





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Sinto vergonha de mim (Rui Barbosa)

Tão actual....em Portugal....

!

A poesia de Rui Barbosa (poeta brasileiro), apresentada a seguir,
poderia ter sido escrita hoje, sem mudar uma palavra.

SINTO VERGONHA DE MIM

Sinto vergonha de mim
por ter sido educador de parte deste povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-Mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o 'eu' feliz a qualquer custo,
buscando a tal 'felicidade'
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos 'floreios' para justificar
actos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre 'contestar',
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.

Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir o meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar o meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo deste mundo!

'De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto'.

Rui Barbosa

(recebido por mail)

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segunda-feira, maio 18, 2009

Carta aberta à ministra da Educação - Santana Castilho

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In Publico - Não sinto necessidade de comentar. Concordo, Professor Castilho!

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quinta-feira, maio 14, 2009

O dinheiro dos contribuintes

Quem não estará lembrado do famoso debate na AR, em que a oposição pedia ao governo para ajudar a enfrentar a subida descontrolada do preço do petróleo, que no espaço de um ano aumentou de 50 para 150 dólares o barril?

Nessa altura, o PM chegou a gracejar, afirmando que o seu governo até tinha reduzido a percentagem do imposto sobre os produtos petrolíferos, tomando toda a gente por estúpida ao procurar esconder que uma redução da percentagem, quando aplicada a um preço base que triplicou, pode significar uma duplicação da colecta.

Insensível aos apelos da oposição, que se indignava com o aumento da colecta numa altura em que os agentes económicos se encontravam asfixiados pela subida da despesa nos factores de produção, o PM não encontrou melhor argumento para impôr a sua política do bota abaixo, do que afirmar o seguinte:

“…então o Sr deputado acha que o governo vai roubar o dinheiro dos contribuintes, para suportar os custos da gasolina?”

Mas isso era noutro tempo, em que ainda não cheirava a votos.

Agora, com três eleições à porta, está na hora é de usar o dinheiro dos contribuintes para pagar metade do empréstimo à habitação, daqueles jovens casais em que um dos membros caiu no desemprego, vítimas daquela asfixia económica que referimos no capítulo anterior.

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terça-feira, maio 12, 2009

Sylvain Timsit - Estratégias de manipulação

Estratégias e técnicas para a manipulação da opinião pública e da sociedade


  1. A estratégia da diversão
    Elemento primordial do controle social, a estratégia da diversão consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e da mutações decididas pelas elites políticas e económicas, graças a um dilúvio contínuo de distracções e informações insignificantes.

    A estratégia da diversão é igualmente indispensável para impedir o público de se interessar pelos conhecimentos essenciais, nos domínios da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética.

    "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por assuntos sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar, voltado para a manjedoura com os outros animais" (extraído de "Armas silenciosas para guerras tranquilas" ).
  2. Criar problemas, depois oferecer soluções
    Este método também é denominado "problema-reacção-solução". Primeiro cria-se um problema, uma "situação" destinada a suscitar uma certa reacção do público, a fim de que seja ele próprio a exigir as medidas que se deseja fazê-lo aceitar. Exemplo: deixar desenvolver-se a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público passe a reivindicar leis securitárias em detrimento da liberdade. Ou ainda: criar uma crise económica para fazer como um mal necessário o recuo dos direitos sociais e desmantelamento dos serviços públicos.
  3. A estratégia do esbatimento
    Para fazer aceitar uma medida inaceitável, basta aplicá-la progressivamente, de forma gradual, ao longo de 10 anos. Foi deste modo que condições sócio-económicas radicalmente novas foram impostas durante os anos 1980 e 1990. Desemprego maciço, precariedade, flexibilidade, deslocalizações, salários que já não asseguram um rendimento decente, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se houvessem sido aplicadas brutalmente.
  4. A estratégia do diferimento
    Outro modo de fazer aceitar uma decisão impopular é apresentá-la como "dolorosa mas necessária", obtendo o acordo do público no presente para uma aplicação no futuro. É sempre mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro porque a dor não será sofrida de repente. A seguir, porque o público tem sempre a tendência de esperar ingenuamente que "tudo irá melhor amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Finalmente, porque isto dá tempo ao público para se habituar à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegar o momento.

    Exemplo recente: a passagem ao Euro e a perda da soberania monetária e económica foram aceites pelos países europeus em 1994-95 para uma aplicação em 2001. Outro exemplo: os acordos multilaterais do FTAA (Free Trade Agreement of the Americas) que os EUA impuseram em 2001 aos países do continente americano ainda reticentes, concedendo uma aplicação diferida para 2005.
  5. Dirigir-se ao público como se fossem crianças pequenas
    A maior parte das publicidades destinadas ao grande público utilizam um discurso, argumentos, personagens e um tom particularmente infantilizadores, muitas vezes próximos do debilitante, como se o espectador fosse uma criança pequena ou um débil mental. Exemplo típico: a campanha da TV francesa pela passagem ao Euro ("os dias euro"). Quanto mais se procura enganar o espectador, mais se adopta um tom infantilizante. Por quê?

    "Se se dirige a uma pessoa como ela tivesse 12 anos de idade, então, devido à sugestibilidade, ela terá, com uma certa probabilidade, uma resposta ou uma reacção tão destituída de sentido crítico como aquela de uma pessoa de 12 anos". (cf. "Armas silenciosas para guerras tranquilas" )
  6. Apelar antes ao emocional do que à reflexão
    Apelar ao emocional é uma técnica clássica para curto-circuitar a análise racional e, portanto, o sentido crítico dos indivíduos. Além disso, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para ali implantar ideias, desejos, medos, pulsões ou comportamentos...
  7. Manter o público na ignorância e no disparate
    Actuar de modo a que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para o seu controle e a sua escravidão.

    "A qualidade da educação dada às classes inferiores deve ser da espécie mais pobre, de tal modo que o fosso da ignorância que isola as classes inferiores das classes superiores seja e permaneça incompreensível pelas classes inferiores". (cf. "Armas silenciosas para guerras tranquilas" )
  8. Encorajar o público a comprazer-se na mediocridade
    Encorajar o público a considerar "fixe" o facto de ser idiota, vulgar e inculto…
  9. Substituir a revolta pela culpabilidade
    Fazer crer ao indivíduo que ele é o único responsável pela sua infelicidade, devido à insuficiência da sua inteligência, das suas capacidades ou dos seus esforços. Assim, ao invés de se revoltar contra o sistema económico, o indivíduo se auto-desvaloriza e auto-culpabiliza, o que engendra um estado depressivo que tem como um dos efeitos a inibição da acção. E sem acção, não há revolução!...
  10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles se conhecem a si próprios
    No decurso dos últimos 50 anos, os progressos fulgurantes da ciência cavaram um fosso crescente entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dirigentes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" chegou a um conhecimento avançado do ser humano, tanto física como psicologicamente. O sistema chegou a conhecer melhor o indivíduo médio do que este se conhece a si próprio. Isto significa que na maioria dos casos o sistema detém um maior controle e um maior poder sobre os indivíduos do que os próprios indivíduos

© syti.net, 2002

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domingo, maio 10, 2009

Movimento para a Democracia Directa - DD

Já abriu o sítio da internet do Movimento para a Democracia Directa - DD: http://democraciadirecta.pt/.

O sítio é a interface digital de projecção do Movimento na rede. Naquele espaço se pode saber quem somos, o que defendemos (veja-se a Declaração de Princípios), o que fazemos, como fazemos, se pode aderir e apoiar, informar-se sobre os nossos eventos, os membros escreverem no Blogue do DD, mais os artigos de fundo do sítio, os membros opinarem no Forum do DD, ver e ouvir as últimas intervenções públicas e conhecer as últimas notícias de relevo no Radar do DD.

O Movimento é uma associação cívica não-partidária para a promoção da Democracia Directa em Portugal. Um Movimento pedagógico e de acção. De reflexão e consequência. De análise e decisão. De encontro, junção e intervenção.

Portugal precisa da reforma moderada do sistema político para a Democracia Directa: mais participação dos cidadãos na vida da comunidade, mais iniciativa, mais direito de escolha, mais garantia, mais transparência, mais responsabilização, mais idoneidade e independência, mais liberdade e respeito pela separação dos poderes. A IV República portuguesa.

Se concorda com a nossa Declaração de Princípios e confia em nós, junte-se e venha connosco! Na Democracia Directa esperamos por si!

sexta-feira, maio 08, 2009

João Severino - Perigos da Terceira Travessia do Tejo

O Professor Carvalho Rodrigues disse que houve pessoas quase a morrer em Sacavém. Mas eu conheci uma pessoa, trabalhador da STE, que morreu de facto nas inundações de 2008, arrastado pelas águas. (AF)


A Terceira Travessia do Tejo (TTT) em Ponte no Mar da Palha põe definitivamente em risco as populações ribeirinhas das cidades de Lisboa até Vila Franca de Xira e do arco ribeirinho da margem sul (Alcochete, Montijo, Moita, Barreiro, Seixal e Almada). O índice de assoreamento no Mar da Palha é extremamente elevado, como é bem visível nesta fotografia do "Dique" Vasco da Gama (http://www.anmpn.pt/images/apvg.jpg ) dado que, o aumento de amplitude do estuário naquela zona provoca uma diminuição significativa da velocidade da água, que facilita a precipitação dos sedimentos que vêm em suspensão. Na maré baixa, no trajecto Seixal - Lisboa, existem locais onde já não passam dois catamarans um pelo o outro. Os cerca de 50 pilhares da nova Ponte vão originar igual número de ilhas cujo aumento de volume ao longo dos anos provocará um efeito de Dique, potenciando a ocorrência de catástrofes com inundações das zonas ribeirinhas, em situações de caudais elevados aliadas a ventos e marés vivas equinociais. Efectivamente, dado que os caudais no rio têm vindo a aumentar fruto da diminuição das zonas de infiltração em terra ocupadas pela malha urbana, a introdução de infra-estruturas no rio que funcionam como obstáculos à corrente fará crescer significativamente o nível de assoreamento, potenciando a ocorrência de inundações devido à subida da altura da água. Este problema não foi objecto de qualquer estudo científico, nem sequer foram consultadas as entidades de referência no domínio da hidrografia, nomeadamente, o Instituto Hidrográfico. O Professor Carvalho Rodrigues, no Programa Clube de Imprensa da RTP2, através de uma experiência simples, mostra-nos os riscos que a TTT em ponte (em qualquer dos corredores) representará para as populações ribeirinhas, no caso de não vir a ser travada a tempo. A falta de rigor e superficialidade do estudo subjacente à TTT no respeitante aos seus efeitos na área molhada, é uma vergonha para a Engenharia Portuguesa, aliás bem patente no parecer sobre o Projecto emitido pelo Gabinete de Sexa. o Chefe do Estado Maior da Armada, quando afirmou (sic): "Apesar do Estudo de Impacto Ambiental referir que o Instituto Hidrográfico foi contactado como entidade interessada, convém esclarecer que as solicitações dirigidas àquele Instituto não foram nesse sentido, tendo tido apenas como objectivo a cedência de dados hidrográficos publicados pelo IH." Ou seja, quem sabia da poda, quem tinha a soberania sobre os saberes, não foi consultado!
Para ver a totalidade do video do Clube de Imprensa de 2009.04.29 - Portugal, País de Descobertas - clique neste link:
http://ww1.rtp.pt/multimedia/?tvprog=23329&idpod=24754

João Severino, A nova ponte é um perigo
Pau para toda a obra, 4 de Maio de 2009

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terça-feira, maio 05, 2009

Alain Refalo - Em consciência, recuso-me a obedecer

Alain Refalo
A acção que desencadeei através da carta que dirigi ao meu inspector, na qual o informo de que, em consciência, me recuso a obedecer a determinadas decisões ou recomendações emanadas superiormente no início do ano lectivo, foi uma acção cuidadosamente ponderada. Ao mesmo tempo, reflecte situações já antigas pois, nos últimos meses, tivemos muitas reuniões, dedicámos tempo a discutir com colegas e com pais de alunos, onde analisámos o conjunto das medidas ou reformas que nos caíram em cima, reformas para as quais nunca fomos ouvidos nem achados e que, consideradas de uma ponta à outra, concluímos que iriam conduzir ao desmantelamento da educação nacional. Pelo que creio ter havido um amadurecimento do processo que me levou, já no início do ano, a tomar algumas decisões para as minhas aulas que eram conformes às conclusões que tirámos e, ao fim de algumas semanas, decidi dar conhecimento formal ao meu inspector sobre tais decisões, além de as publicitar para o público em geral num blogue. O que se verificou nos últimos quinze dias foi que outros professores retomaram o modelo de carta que publiquei no blogue, usaram os termos da carta que eu escrevi, escreveram eles próprios outras cartas dirigidas aos seus inspectores ou aos seus reitores e deram disso conhecimento. público Assim, publicamos todos os dias uma nova carta individual no nosso blogue. Mas, mais interessante ainda, surgiram iniciativas colectivas no seio das escolas, os professores juntaram-se, redigiram as suas próprias cartas, assinaram-nas colectivamente e enviaram-nas aos respectivos inspectores. Muito recentemente na Euro, uma intersindical, o conjunto dos sindicatos da Intersindical de L'Enseignement de l'Euro consertaram-se sobre um modelo de carta que vão difundir largamente entre os colegas professores e essas cartas serão enviadas colectivamente a 17 de Dezembro à Inspecção Escolar.
Encontramo-nos portanto no meio de um movimento colectivo que exercerá uma pressão forte sobre o ministério. É verdade que a desobediência pedagógica ou a desobediência civil não fazem parte dos meios de acção tradicionais dos sindicatos, não faz parte da cultura sindical. Os sindicatos são mais propensos a acções como as manifestações, as petições ou as greves. Creio termos hoje atingido, infelizmente, os limites destes métodos de acção na medida em que o próprio governo proclama abertamente que está pronto a resistir a esse tipo de acções, está pronto a suportá-las. O Sr Sarkozy declarou mesmo que, quando há hoje uma greve em França, já ninguém repara nela, o que é bem verdade. O governo está preparado para enfrentar um movimento grevista maciço. Portanto, a questão que se coloca é: como podemos nós alterar a nosso favor a correlação de forças? Como iremos nós radicalizar - no bom sentido - a luta, na direcção de uma marcha inédita, feita de desobediência civil e pedagógica, que permita finalmente aos professores apropriarem-se de novos instrumentos de luta. Exige-se aos professores, em suma, descartar, recusar um certo número de reformas, contrariarem tais reformas. Exige-se agora, finalmente, aos professores (...).
Assim, coloca-se à consciência uma questão forte: Será que, enquanto professores e funcionários, estamos condenados a colaborar no desmantelamento da educação nacional? Será que, ao obedecermos ou ao nos mantermos silenciosos, não assumimos uma responsabilidade? Creio que aí encontramos um incentivo, um posto de observação, a partir do qual cada professor, individualmente ou em conjunto, pode decidir-se a enveredar pela resistência. Não apenas resistência por palavras, mas também por actos, actos concretos que comprometem, que levantam o risco de sanções. Creio ser inédito na educação nacional, não apenas que se tenha tomado a iniciativa de desobedecer, como a de se tornar pública essa desobediência. É a publicitação dessa desobediência, pela amplitude social que assume, que tem a possibilidade de alterar a correlação de forças.
Esta acção de resistência pela desobediência não é apenas uma acção de contestação, uma acção de oposição. É também uma acção que se destina a construir, a propor. Claro que o modelo de escola a que aspiramos não é o da escola-competição, não é o modelo do escalonamento dos alunos, não é o do despique entre os estabelecimentos escolares, creio que o modelo a que aspiramos é o modelo em que as crianças reencontrarão o prazer em se dirigirem à escola, reencontrarão o prazer em aprender e, no plano pedagógico, a empreender projectos cooperativos capazes de as pôr a construir coisas em conjunto, a aprender em conjunto, a se ajudarem mutuamente. Creio, finalmente, tratar-se de uma escola ao serviço de uma sociedade da solidariedade, de uma sociedade onde não estejamos uns contra outros mas uns com outros. Creio ser também este o sentido do actual movimento. Ao mesmo tempo que recusamos, que contestamos e que desobedecemos, sem mesmo esperarmos que a lei mude, concretizamos alternativas pedagógicas que despertem a chama da cooperação e da solidariedade.
Relativamente à minha situação pessoal, de momento decorre um inquérito administrativo. Quer dizer que o inspector da Academia deu ordem ao inspector da Circunscrição para elaborar um relatório, no qual devem constar os pontos de desobediência. Este último procurou-me para averiguar as minhas motivações e certificar-se que as minhas palavras durante as entrevistas confirmam aquilo que deixei escrito. Agora vem às minhas aulas com regularidade para verificar se aquilo que disse e que escrevi corresponde exactamente àquilo que faço, ou inversamente. Está portanto na fase da redacção do relatório baseado naquilo que observou durante as visitas às minhas aulas. Depois disso, penso que a Inspecção da Academia irá convocar-me e mais tarde virá o tempo de reflexão sobre a sanção, caso venha a ter lugar. É preciso saber que hoje decorre uma petição na internet, no sítio do SNIPP para me apoiar e exigir que não recaia sobre mim qualquer sanção. Esta petição já foi assinada por muitos milhares de pessoas. Está a ser constituído um comité de apoio. Os pais dos alunos da minha classe têm uma proposta que será dirigida à Inspecção da Academia junto com uma carta na qual expressam a sua preocupação com o que acontecerá com os meus alunos.
Sou Alain Refalo, professor desde há dezoito anos; além disso, sou um militante da não-violência desde há mais de vinte e cinco anos. A não-violência é uma forma de luta, uma forma de resistência. Tem já uma longa história a não-violência, desde os combates de Gandi e de Martin Luther King e é nestes combates que hoje me encontro, é nesses combates que hoje me inspiro. Creio ser um professor militante, muito simplesmente.

En conscience, je refuse d’obéir
(Tradução da entrevista filmada)

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